UCRÂNIA: “Todo o mundo está traumatizado”, reconhece padre, em Kyiv, sobre a guerra iniciada há três anos

A invasão da Ucrânia começou na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022. O Padre Lucas Perozzi tem sido testemunha desta guerra em pleno coração da Europa. Desde a região de Kyiv, a capital ucraniana, onde está em missão, o sacerdote descreve para a Fundação AIS um país cansado, saturado da violência, em que quase tudo gira à volta da guerra, da morte, do sofrimento, dos traumas. “A única coisa que se tem é a esperança de que, um dia, isto acabe”, desabafa.

A guerra começou há precisamente três anos com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022. Passaram 37 meses. Mais de 26 mil horas. Um tempo que parece interminável e que deixou marcas profundas.

O Padre Lucas Perozzi, um jovem sacerdote brasileiro que vive na região de Kyiv, tem sido testemunha desta guerra desde o primeiro dia. E desde o primeiro dia que tem partilhado com a Fundação AIS os seus medos e alegrias, as suas dúvidas e certezas. Mas desta vez o Padre Lucas não conseguiu esconder o cansaço. “A guerra continua, continuamos com ataques.  Ontem, antes de ontem, a noite inteira, sempre escutando disparos em drones, ataques de drones, quase toda a noite. E às vezes também ataques de mísseis…  E passa-se tudo aqui por cima”, relata, numa mensagem gravada em que se chegam a escutar, em fundo, os disparos das metralhadoras antiaéreas…

Foi há mil e noventa e seis dias que as tropas russas cruzaram as fronteiras para uma “operação militar especial” que, diziam, iria ser rápida e eficaz. Não foi.  A guerra prolongou-se já por três anos e arrastou toda uma nação para um cenário de destruição e sofrimento e morte que já não se imaginava possível em pleno coração da Europa.

Nestes três anos, cerca de 10,6 milhões de ucranianos foram forçadas a abandonar as suas casas, e muitos milhares perderam a vida ou ficaram feridos e traumatizados. As Nações Unidas calculam que mais de 2 milhões de casas foram destruídas ou danificadas.

Mesmo os que não estiveram na linha da frente estão marcados pela guerra. São os prédios que desabam pelo impacto dos mísseis ou drones, é a destruição das centrais de energia, são as cidades que ficam reduzidas à escuridão e ao frio… tudo deixa marcas, cansa, esgota. É verdade que nas últimas semanas tem-se falado muito de paz, de cessar-fogo, do fim da guerra. Mas para muitos ucranianos, isso parece algo distante, demasiadamente distante. “Fala-se de paz, mas não se vê nada que leve ao fim da guerra”, sintetiza o sacerdote do Caminho Neocatecumenal.

“NÃO CONSEGUEM VIVER UMA VIDA NORMAL…”

A guerra trouxe consigo uma multidão de pessoas feridas no corpo e na alma. Pessoas que estão traumatizadas e que precisam de ajuda. Pessoas que são, agora, uma das principais preocupações dos padres, das religiosas, da Igreja. E cada vez há mais homens e mulheres que voltam das linhas da frente a precisar de ajuda.

“Estão a voltar muitas pessoas feridas, pessoas que estavam no exército, na ‘fronte’, na guerra, lutando.  E isso é um desafio muito grande para toda a sociedade em geral, não somente para a Igreja. Nós temos de nos preparar para essa nova onda”, explica o Padre Lucas Perozzi. “São problemas muito difíceis, ligados à morte de familiares próximos, ligados a contusões psicológicas, porque as pessoas que voltam da guerra não voltam do mesmo jeito que partiram. E é muito difícil lidar com essas pessoas, e os familiares também têm o mesmo problema. Aqueles que vão para a guerra e depois voltam da guerra, não conseguem viver aqui, levar uma vida normal”, acrescenta.

O Padre Lucas descreve o apoio às populações traumatizadas pela guerra como um desafio muito duro para a Igreja. E diz que é necessário haver preparação para que tanto sacerdotes como religiosas fiquem habilitados a desempenhar minimamente essas tarefas, que, aliás, são exemplo também do apoio que a Fundação AIS tem vindo a dar à Igreja ucraniana ao longo destes anos de guerra.

“É um trabalho muito duro para nós e para eles também. Um trabalho muito duro. Em relação à Igreja, nós estamos a preparar-nos para isso. Os encontros que nós fazemos com o bispo, a formação permanente que nós temos, tudo está dirigido à reabilitação das pessoas que voltam, não somente para os paroquianos e para os cristãos e católicos, mas para todo mundo, até porque a sociedade em si não está preparada para acolher todas essas pessoas com todos esses problemas.”

O próprio Padre Lucas está envolvido nestas acções de formação para os traumatizados da guerra. “Eu, por exemplo, na segunda semana de Março vou fazer esse curso também, que é um curso de uma semana inteira, para saber como lidar com essas pessoas e como ajudá-las”, explica.

VER MORTE EM TODO O LADO

Não se sabe ainda como esta guerra vai terminar, com que acordo de cessar-fogo se vão calar as armas. Não se sabe, sequer, como vai ser o futuro da Ucrânia, mas para o Padre Lucas o presente é já um enorme motivo de preocupação. A começar no desmoronamento das famílias. “Os homens, a maioria, morrem de medo de ir para a guerra.  Muitos não saem de casa e isso afecta muito as famílias, porque as mulheres têm de sair para trabalhar e os homens ficam parados em casa. Isso gera muitos conflitos nas próprias famílias. Temos o problema das famílias que se separaram, em que a mulher foi para o exterior e o homem ficou. Muitas famílias têm-se separado também por causa disso…” diz.

O medo dos homens em serem mobilizados para a guerra poderá ficar resolvido se houver um acordo de paz. Mas até esse dia chegar, é um problema que atinge também os próprios sacerdotes. “Saiu uma lei dando a isenção aos padres de não irem para a guerra, mas a lei não entrou em vigor ainda. E muitos estão com esse problema. Um padre amigo meu está a ser procurado”, confessa. “E se o encontrarem, mandam-no para a guerra. Então, é uma tensão contínua…”

Face a tudo isto, a toda esta tensão, o Padre Lucas reconhece que está cansado, mas isso não apaga por completo o sentido da esperança. É o que lhe vale… “Eu não sei falar de mim mesmo. Sei que estou continuamente cansado, isso sim, mas, ao mesmo tempo, com esperança”, afirma, para concluir: “não está a ser fácil, não está a ser fácil…”. O pior são mesmo os traumas causados pela guerra, pela constante tensão dos bombardeamentos, da destruição, das notícias dos mortos e feridos, do medo. “Aqui, todo a gente está traumatizado pela guerra”, diz, acrescentando que isto afecta tanto os que voltam da linha da frente como os que vivem nas cidades angustiados. Todos falam de morte, de mortos, de desaparecidos… “Os piores são aqueles que voltam da guerra, mas aqueles que estão aqui também. Todos vêm morte, estão à escuta de parentes, de amigos, de vizinhos que morreram, que estão desaparecidos”, explica o sacerdote. É o retrato da Ucrânia ao fim de 1096 dias de guerra.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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O maior desafio à liberdade religiosa na Ucrânia é a situação nos territórios ocupados. Na área controlada pelas autoridades de Kiev, os casos de discriminação religiosa são, até à data, sobretudo incidentes perpetrados contra indivíduos, e não violações sistémicas da liberdade religiosa.
Tragicamente, a guerra parece ter-se enraizado cada vez mais. As violações dos direitos humanos, incluindo as violações da liberdade religiosa, não diminuirão. As perspectivas continuam a ser negativas.

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