Um ataque brutal em Abiemnhom, no primeiro Domingo de Março, causou a morte a quase duas centenas de civis e provocou o deslocamento de mais de 4 mil pessoas. A irmã comboniana Beta Almendra, que está em missão na diocese de Wau, descreve um clima de insegurança crescente no Sudão do Sul, em que “são as pessoas inocentes, as crianças, as mães, que pagam o preço mais alto”…
Foi devastador. No Domingo, 1 de Março, um ataque no condado de Abiemnom, perto da fronteira com o Sudão, provocou a morte a quase duas centenas de pessoas. Os primeiros relatos apontavam para, pelo menos, 169 mortos, mas este número deverá ser maior, dada a existência de largas dezenas de feridos. Para a Igreja, tratou-se de um massacre.
Num comunicado divulgado pouco depois pela Conferência Episcopal do Sudão e Sudão do Sul, os bispos classificam o ataque como um crime “hediondo e sem sentido”, e afirmam que “não há qualquer justificação para o assassinato de civis inocentes”, e que “tais actos são uma ofensa contra Deus, o Autor da Vida, e um grave pecado contra a humanidade”. Nessa declaração, os prelados afirmam ainda que receberam “relatos angustiantes de ataques brutais” e condenam a cultura da vingança e violência que está a crescer no país. “Vingança não é justiça. Punição colectiva não é força. Sangue por sangue não é dignidade. Esta mentalidade tem de acabar”, afirmam os Bispos.
Toda esta violência ocorre no meio da crescente instabilidade política no Sudão do Sul, que remonta a 2018, quando se deu o rompimento do acordo de paz assinado entre o presidente Salva Kiir e o seu então vice-presidente Riek Machar. A situação é tão grave que o Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, alertou, em 27 de Fevereiro, que o país se encontra num “ponto perigoso”, em que há o risco de regresso pleno aos tempos da guerra civil, e que esta é uma “das crises esquecidas do mundo”.
“Os rebeldes entraram e dispararam…”
Uma crise que é seguida, com natural angústia, pela Irmã Beta Almendra, uma religiosa comboniana portuguesa que está em missão na Diocese de Wau. Em mensagem enviada para a Fundação AIS, a propósito do ataque em Abiemnhom, a irmã não tem dúvidas em falar em “massacre de quase 200 pessoas”. E explica que são vítimas inocentes.
Foram mulheres, mães e filhos que os rebeldes entraram e dispararam. Dispararam por todos os sítios e mataram muita gente. E porquê estas guerras? Porquê estes conflitos? É tudo uma questão de poder.”
Irmã Beta Almendra
Tal como os bispos, também a irmã Beta Almendra aponta o dedo para uma cultura de vingança que está a destruir o Sudão do Sul. “O poder realmente atrai muita gente e atrai também o mal. Há uma tribo que quer prevalecer sobre a outra, sobre o território, e claro que depois surgem estas vinganças que, de tempos em tempos, são terríveis”.
E acrescenta: “Estamos sempre neste vaivém de insegurança” que pode crescer a ponto de “acontecer uma guerra total, em que são as pessoas inocentes, são as crianças, são as mães que pagam o preço mais alto, porque não têm como fugir, não têm como se defender e são apanhados de surpresa”.
“Recebemos muitos deslocados…”
A somar a tudo isto, o Sudão do Sul é um país pobre em que as populações têm dificuldade em sobreviver no dia-a-dia, situação que acaba por se transformar na ignição do sentimento de revolta. “Há uma crise enorme de necessidades básicas, ao nível da escola, dos hospitais… os salários não são pagos há mais de dois anos”, relata a irmã comboniana, fazendo notar que esta é “uma questão absurda”, que o povo vai aguentando mas que, quando surge uma oportunidade de revolta, “a revolta acontece”.
Por tudo isto, a religiosa pede, através da Fundação AIS, as orações dos portugueses, as orações de todos. “Peço, com grande carinho, com grande amor, que rezem por esta gente. Nós aqui, em Wau, ainda estamos um bocadinho longe destes conflitos, mas temos recebido muita gente que tenta escapar, recebemos muitos, muitos deslocados, pessoas que não têm nada… Não há grande esperança para esta gente”, diz, a terminar, reforçando o pedido de orações e a certeza de que a Igreja está ao lado dos que mais necessitam. “Tentamos ser um ponto de esperança, um ponto de apoio, um ponto de carinho”, diz, a terminar.
Projectos de apoio da Fundação AIS
O Sudão do Sul é um país prioritário para a Fundação AIS, não só ao nível dos projectos de ajuda de emergência que são desenvolvidos, nomeadamente de apoio a refugiados, mas também de auxílio à sobrevivência de padres e religiosas, na tradução para línguas locais de material catequético, de que se destaca a Bíblia das Crianças.
A situação no Sudão do Sul é grave, só por si, mas o país tem também acolhido milhares de pessoas em fuga do vizinho Sudão, um país dilacerado pela guerra desde há vários anos. E a Fundação AIS tem estado também profundamente preocupada com a situação dos que atravessam a fronteira, fugindo dos combatese e estão sem nada. Em 2024, a AIS lançou, em Portugal, uma campanha para auxílio à Diocese de Malakal que acolhe cerca de 500 famílias de refugiados.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










