O clima de incerteza entre os cristãos no Médio Oriente estende-se à Síria, onde as procissões do Domingo de Ramos foram canceladas em várias cidades, entre elas Damasco e Alepo, devido à insegurança persistente e como sinal de solidariedade após o recente ataque no passado sábado em Sqelbiyeh, uma localidade de maioria cristã. Entretanto, a Irmã Myri, a única religiosa portuguesa a viver na Síria, volta a pedir, através da Fundação AIS, as orações de todos pelos cristãos do Médio Oriente.
O ataque contra a localidade de Suqaylabiyah (Sqelbiyeh), na província de Hama, ocorreu na noite de Sábado, 28 de Março. Segundo fontes locais, habitantes de uma aldeia vizinha atacaram a comunidade na sequência de um conflito anterior. Durante o incidente, várias lojas foram saqueadas e uma estátua da Virgem Maria foi destruída. A situação acabou por ser controlada, mas o acontecimento gerou grande inquietação entre a população.
O Padre Dimitrios, sacerdote de Sqelbiyeh e parceiro do projectos da AIS, explicou em declarações à fundação pontifícia que o ataque foi inesperado e que não havia sinais claros nos dias anteriores de que algo assim iria suceder. Embora já tivessem ocorrido incidentes semelhantes, estes tinham sido de âmbito limitado. Segundo o sacerdote, a incitação nas redes sociais terá influenciado alguns jovens e contribuído para o agravamento da tensão.
O sacerdote sublinhou que as relações entre as diferentes comunidades religiosas na região continuam a ser boas em geral, e que estão actualmente a ser envidados esforços para conter a situação. “Hoje há ansiedade, tensão e algum medo, e as pessoas ficaram nas suas casas”, assinalou. Explicou também que, por motivos de segurança, foram canceladas as celebrações ao ar livre do Domingo de Ramos, enquanto as missas e as orações dentro das igrejas decorreram normalmente.
Medo da islamização da sociedade
Por seu lado, D. Joseph Tobji, arcebispo maronita de Alepo, explicou na sua homilia do Domingo de Ramos que o cancelamento das procissões em Alepo não se deveu ao medo, mas a um gesto deliberado de solidariedade para com as comunidades atacadas. Da mesma forma, indicou que a decisão constitui também uma forma de protesto contra a proliferação de armas no país fora do controlo do governo oficial.
Neste contexto, responsáveis eclesiásticos têm alertado em várias ocasiões para uma crescente inquietação entre os cristãos quanto ao futuro da Síria. Alguns líderes da Igreja, como o arcebispo Jacques Mourad, têm assinalado que existe um receio crescente face à falta de liberdades e ao risco de marginalização, o que alimenta o medo de uma progressiva islamização da sociedade.
Solidariedade da Fundação AIS
Perante esta situação, e também face ao que tem acontecido no Líbano, a Fundação AIS expressa uma vez mais a sua proximidade e solidariedade para com o Patriarcado Latino de Jerusalém, a Custódia da Terra Santa e todas as comunidades cristãs afectadas. “Pedimos o respeito efectivo da liberdade religiosa e do ‘status quo’ que regula os direitos e o acesso aos Lugares Santos de Jerusalém, para que os fiéis possam viver a sua fé sem obstáculos, especialmente durante os dias santos”, salienta Regina Lynch, presidente executiva da Fundação AIS Internacional.
A AIS convida também os fiéis de todo o mundo a unirem-se em oração pelos cristãos da Terra Santa e de todo o Médio Oriente, e pela paz em Jerusalém e em toda a região. Que esta Semana Santa, marcada pela provação e pela incerteza, seja também um tempo de esperança, reconciliação e fé na Ressurreição.”
Regina Lynch
Apelo às orações da irmã Myri
Entretanto, a Irmã Maria Lúcia Ferreira, a única religiosa portuguesa a viver na Síria, volta a pedir também, e através da Fundação AIS, as orações de todos pelos cristãos do Médio Oriente. A irmã pede para “se continuar a rezar pelos cristãos do Médio Oriente que neste momento estão a viver a paixão por serem seguidores de Jesus Cristo”.
A religiosa, que pertence à congregação das Monjas de Unidade de Antioquia, e que é mais conhecida simplesmente como Irmã Myri, lembra que aos cristãos “tudo lhes cai em cima”. E lembra o que se está a passar na Síria, mas também noutros países da região. “A impossibilidade de celebrar as festas, a festa agora do Domingo de Ramos, que teve de ser só celebrada dentro das Igrejas, habitualmente aqui na Síria, por exemplo, há manifestações, fazem-se procissões na rua, etc.. Foi impossível. Também na Terra Santa está a acontecer o mesmo e outros países estão debaixo das bombas, nomeadamente no Líbano”, diz, na mensagem de voz enviada na noite desta Segunda-feira, dia 30 de Março. Uma breve mensagem em que agradece à Fundação AIS “que pede orações, que incita a rezar”.
Para a religiosa, que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, na vila de Qara, a proximidade da oração dos fiéis de todo o mundo é muito importante para os cristãos da Síria, pois “têm necessidade de sentir os seus irmãos próximos, para os ajudarem a atravessar estas provações”, e lembra que a Síria é “Terra da Revelação, de onde tudo partiu e à qual devemos agradecer”. “Devemos agradecer a salvação que temos e que foi graças a estas raízes que aqui estão”, conclui a Irmã Myri.
Maria Lozano e Paulo Aido
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







