R. C. AFRICANA: “Estamos numa situação terrível”, diz D. Aurélio Gazzera em entrevista à Fundação AIS

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O Bispo de Bangassou, na República Centro-Africana, esteve de passagem pelo Canadá e foi entrevistado pela Fundação AIS. Uma conversa longa que permitiu a D. Aurélio Gazzera lançar um alerta para a situação extremamente difícil em que se encontra este enorme país que tem sofrido muito por causa de guerras, de violência, e que continua a ver as suas riquezas naturais a serem exploradas por países estrangeiros, enquanto o povo luta pela sobrevivência no dia-a-dia.

No meio de tudo isto, a Diocese de Bangassou tenta socorrer todos os que pedem ajuda, mas é uma missão muito difícil e arriscada. Ainda recentemente, em Junho, um sacerdote foi assassinado.

“O meu sonho é reactivar um pouco o sector do café, o que poderá permitir às famílias terem algum rendimento regular”, explica D. Aurélio Gazzera à Fundação AIS durante a recente visita ao Canadá. O combate à pobreza é um dos desafios que o Bispo de Bangassou enfrenta na actualidade. Mas não é o único, longe disso.

Conhecido desde há vários anos pelo trabalho humanitário e pela sua coragem como mediador de paz durante os tempos negros de guerra civil na República Centro-Africana, o missionário carmelita sucedeu em Junho deste ano a D. Juan Aguirre. A diocese é enorme e representa um desafio gigante. Maior do que Portugal, Bangassou é também um território difícil de percorrer. Faltam estradas, faltam caminhos transitáveis e isso significa que as comunidades ficam, muitas vezes, irremediavelmente meio abandonadas.

“Entre as duas paróquias mais distantes, há mais de 600 km”, explica o Bispo. “E, portanto, com estradas que já não existem, isso significa que, para ir, por exemplo, visitar as minhas comunidades, as minhas paróquias, preciso de passar horas, dias, de carro, com riscos enormes, por vezes acidentes. Muitas vezes ficamos atolados durante um dia inteiro, como me aconteceu no mês de Março. E, portanto, para além da enormidade do território, há, ainda assim, comunidades muito, muito corajosas, muito dinâmicas, que procuram manter a sua fé, a sua caridade, a sua esperança, apesar das dificuldades”, diz D. Aurélio na entrevista à AIS do Canadá.

Décadas de tensões e de guerra

As distâncias e a ausência de vias transitáveis ajudam a perceber as dificuldades do trabalho da Igreja. Mas o mais difícil tem sido, apesar de tudo isso, criar um ambiente de paz, ajudar a minimizar as tensões que continuam a fazer-se sentir entre comunidades, mesmo após 2012, quando eclodiu a guerra civil.

“É toda uma região que viveu décadas de guerras, de tensões, primeiro com os mercenários da LRA, depois com os Seleka, grupos rebeldes, digamos, sobretudo arabófonos e muçulmanos. Depois, houve ainda outros. Portanto, é uma região que sofreu muito e que continua a sofrer”, diz D. Aurélio Gazzera, explicando que a Igreja tem tido um papel essencial no acolhimento a todos os que têm sido vítimas da violência extrema. Mesmo muçulmanos.

“Entre 2017 e 2021, as dioceses acolheram milhares de muçulmanos nos seminários, porque era o único lugar onde podíamos protegê-los. Isso marcou profundamente os corações dos padres, das irmãs e dos cristãos”, explica o bispo, lembrando que a violência continua a fazer parte do quotidiano e a atingir também elementos da própria Igreja. “A 29 de Junho, tivemos um padre, o abade Crépin, que foi morto em Zémio, uma zona de alta tensão… Foi morto, principalmente por causa do seu trabalho de mediação e de pacificação”, explica.

Papa Francisco em Bangui em 2015

Para se perceber a situação actual na República Centro-Africana é preciso recuar mais de uma década. Tem sido um tempo de rebeliões, de guerras que deixaram marcas profundas na sociedade.

“Em 2013 e 2014, houve uma primeira grande vaga. Havia os rebeldes chamados Seleka, que eram arabófonos, na sua maioria muçulmanos, mas que não tinham uma conotação religiosa. Vinham precisamente do nordeste do país. Praticamente, conquistaram o país, tomaram o poder. Colocaram um novo Presidente e foi um desastre, porque começaram a pilhar realmente tudo em todo o lado, todas as cidades… Alguns meses depois, surgiu um movimento de resistência, os anti-Balaka. Nessa altura, em 2013-2014, digamos que a imprensa internacional falava um pouco de cristãos contra muçulmanos, mas isso não é verdade. Era antes, um conflito entre gente que falava árabe e gente que não falava árabe. Não havia nada de religioso naquela guerra”, recorda o Bispo de Bangassou.

Foi nessa altura, em 2015, que o Papa Francisco foi ao país, para abrir, em Bangui, a primeira Porta Santa do Jubileu do Ano da Misericórdia. Foi providencial. “Isso ajudou muito a acalmar um pouco a situação. Em 2015-2016, houve eleições. Pouco a pouco, o país começou a funcionar a um ritmo um pouco mais regular. Mas houve sempre zonas ocupadas por rebeldes, de um lado ou do outro”, testemunha D. Aurélio Gazzera.

Os mercenários da Rússia

As coisas melhoraram, mas os tambores da guerra continuaram a fazer-se escutar. A falta de capacidade do governo em executar políticas transformadoras levou a que o sentimento de revolta nunca se tenha extinguido. E assim têm vindo ao de cima questões étnicas, rivalidades, novos conflitos. E tudo se agravou com a cumplicidade até de potências estrangeiras como a Rússia.

“No ano passado, no mês de Junho, a guerra voltou a eclodir entre estes grupos e os militares centro-africanos, apoiados por mercenários russos”, diz o prelado. “Mercenários que”, diz ainda, “continuam a patrulhar a região, provocando desastres, queimando aldeias, matando pessoas. É realmente uma zona de alta tensão. Nós reagimos enquanto diocese. Escrevi uma carta na qual falávamos da necessidade do diálogo e do desenvolvimento. Porque, se não houver estradas, não poderemos esperar desenvolvimento. E, se não houver diálogo, não podemos esperar desenvolvimento. Portanto, é realmente nesse sentido que temos de trabalhar”, conclui.

Claro que tudo isto é por vezes ainda pouco claro. A presença dos mercenários russos, por exemplo, está associada à delapidação das riquezas naturais. E antes dos russos foi a China.

“Agora é a Rússia que promete muito, que tem muitos interesses em consolidar a sua presença, mas com um peso enorme, porque eles não fazem isso gratuitamente. Portanto, há toda uma falta de transparência relativamente ao pagamento destes mercenários, e isso representa milhões de euros por ano. E, de facto, muitos recursos foram, digamos, retirados por estas companhias russas, etc. Mas também há os chineses, que fazem muito na extracção de ouro. E, portanto, digamos que são países onde há demasiadas pessoas com demasiados interesses para que o país continue frágil e exista uma fragilidade estrutural ao nível, por exemplo, político e governamental”, denuncia.

Aproximação entre comunidades

A história recente da República Centro-Africana está portanto marcada pelo sufoco da violência, da pobreza. E tudo isto num país potencialmente muito rico. Aurélio Gazzera fala mesmo numa situação terrível. “Encontramo-nos numa situação terrível, porque ainda é terrível, de pôr a própria vida em risco para ajudar as pessoas que, antes de mais, nem estão ligadas à Igreja”, diz, lembrando o papel que o seu antecessor, o Bispo Juan Aguirre desempenhou em alguns dos momentos de maior tensão no país e em especial em Bangassou.

“Era importante para estes homens e mulheres, estes padres, estas irmãs, e o bispo que estava cá anteriormente, abrir a porta àqueles que estavam necessitados, sem olhar à cor, à língua ou à religião, porque eram irmãos e irmãs que estavam necessitados”, diz. O que aconteceu, o acolhimento por parte da Igreja a todos os que estiveram em risco, acabou por deixar marcas. Boas marcas. “Como acontece com qualquer tragédia, há também aspectos positivos. O aspecto positivo é que houve uma aproximação entre as comunidades cristãs e muçulmanas, e agora há muito respeito e muita confiança. E isso é um bom elemento que nasceu dessa situação”, explica.

A importância da solidariedade

A Igreja tem sabido contruir, ao longo dos anos, um capital de prestígio inegável entre a sociedade neste país africano. Um dos aspectos que mais tem contribuído para isso é a aposta na educação.

“Os missionários, a primeira coisa que fizeram quando chegaram a Bangui – eles chegaram a Bangui em 1894 –, a primeira coisa que fizeram foi resgatar as crianças escravas que passavam ao longo do rio, libertá-las e educá-las. Portanto, criaram imediatamente escolas. Os primeiros catequistas eram escravos libertados. E eu reparo que, quando vou preparar as confirmações nas paróquias, normalmente passo um ou dois dias com os catequistas, em encontros com os rapazes, as raparigas, os adultos que vão receber o Crisma. E nas paróquias, nas aldeias onde há uma escola, uma boa escola, há uma capacidade de compreender e apreender melhor a riqueza do Evangelho, do anúncio da Palavra, do acontecimento cristão, do que aqueles que não puderam frequentar a escola. É uma dimensão fundamental”, diz.

Face a tudo isto, é cada vez mais importante a solidariedade de instituições como a Fundação AIS que, através da generosidade dos seus benfeitores e amigos, espalhados pelos quatro cantos do mundo, ajudam a socorrer a Igreja que sofre em tantos e tantos países. A República Centro-Africana é disso um bom exemplo. A Igreja local é pobre, muito pobre, e as dioceses precisam de ajuda para manterem tudo a funcionar.

“Temos paróquias onde, ao domingo, o padre recolhe 7, 8 euros… Portanto, não se pode viver com isso”, explica D. Aurélio Gazzera. Se as paróquias não conseguem os recursos necessários, “são as dioceses, com a ajuda dos benfeitores da AIS, que contribuem e têm de assegurar as despesas”. E nas despesas há o sustento dos seminaristas, o apoio aos órfãos e aos idosos e até aos que foram raptados e que conseguiram escapar…

“É todo um trabalho de ajuda primária que é muito importante, ao ponto de, nestes últimos dias, ser já a terceira vez que os juízes da cidade nos enviam crianças raptadas pelo LRA [Exército de Resistência do Senhor, uma milícia armada de origem ugandesa] que conseguiram escapar. E, enquanto aguardam que as famílias possam vir ter com elas, pediram-nos que as acolhêssemos para que pudessem ficar um pouco tranquilas”, explica o prelado.

É por tudo isto que Aurélio Gazzera vai procurando alternativas para que toda esta comunidade, que vive sufocada pela violência e pobreza, possa respirar um pouco melhor. É por isso que tem o sonho de reactivar o sector do café.

Paulo Aido e Mário Bard

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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