PAQUISTÃO: “São às centenas” os cristãos presos por causa da Lei da Blasfémia, garante Amir Sahotra à Fundação AIS

Joel Amir Sahotra, antigo deputado do parlamento provincial do Punjab e destacado dirigente cristão paquistanês, esteve de visita a Portugal e deixou o apelo para que a Igreja, nomeadamente a Fundação AIS, e a Assembleia da República, defendam os cristãos perseguidos no seu país. “Aquilo que queremos é que sejam a nossa voz”, afirmou, em entrevista à AIS.

“Honestamente, a situação está a piorar no Paquistão.” A frase sintetiza tudo. Joel Amir Sahotra, destacado dirigente cristão paquistanês e antigo deputado no parlamento provincial do Punjab, descreve assim, à Fundação AIS, o aumento da perseguição aos cristãos no seu país.

“Talvez tenham tido conhecimento de que há semanas um pastor cristão foi morto em Gujranwala só por causa da sua crença religiosa”, disse, e referiu outro exemplo relacionado directamente com a perseguição aos cristãos nesta mesma região do Paquistão. “E, imagine, uma menina cristã de 6 anos foi violada em Gujranwala por um homem muçulmano de 19 anos. Todos estes incidentes são muito evidentes para entender o que está a acontecer à comunidade”, explicou.

Joel Amir Sahotra veio a Portugal para reforçar a política de apoio a estudantes cristãos através da concessão de bolsas de estudo em estabelecimentos de ensino superior, nomeadamente a Universidade Católica Portuguesa. “Estamos à procura de oportunidades de bolsas de estudo para os nossos estudantes cristãos do Paquistão, e, graças a Deus, estamos com muita sorte porque a Universidade Católica Portuguesa demonstrou muita simpatia, preocupação e generosidade. A Universidade ofereceu quatro bolsas de estudo aos nossos estudantes cristãos do Paquistão, e eles estão no Porto este ano. Isso é um bom sinal de esperança para a nossa juventude cristã do Paquistão”, referiu à Fundação AIS.

O dever de representar os Cristãos

Mas a estadia em Portugal do antigo deputado do Punjab teve outro propósito também: a reunião, no Palácio de São Bento, com membros de alguns partidos políticos representados na Assembleia da República, nomeadamente com elementos do CDS-PP, do Partido Socialista e ainda do Chega. Reuniões que classificou como positivas porque todos os parlamentares se mostraram “muito preocupados” e dispostos a “fazer ouvir a voz da comunidade mais perseguida e desfavorecida do Paquistão”, seja no Parlamento nacional, seja em fóruns internacionais.

“Todos os partidos políticos nos prometeram que irão reivindicar algumas resoluções em favor dos Cristãos no Paquistão”, disse Joel Amir Sahotra, sublinhando a importância disso, porque, “infelizmente – reconhece – não temos uma voz forte nos fóruns internacionais”. À Fundação AIS, Sahotra garantiu mesmo que “Portugal será o primeiro país da Europa a implementar uma resolução a favor dos Cristãos do Paquistão”.

Toda esta actividade foi assumida por Joel Amir Sahotra como um dever para com a sua comunidade religiosa, uma das mais perseguidas no Paquistão. “Pertenço à comunidade cristã, então esse é o meu dever, representar a minha comunidade em todos os fóruns onde posso estar, onde tenho o privilégio de estar, e partilhar com os nossos amigos dos estados ocidentais. É o mais importante. E, como político, como presidente da Fundação Peter John, como activista dos direitos humanos, é o meu dever. Porque nós somos a comunidade mais perseguida do mundo, mas quando as pessoas vêem, quando o mundo vê, quando sabem o que está a acontecer lá, então isso vai ser muito útil para nós”, explicou.

O drama da Lei da Blasfémia

Sinal da importância deste trabalho de advocacy, de activismo, Joel Amir reconhece que, embora a constituição do Paquistão garanta a liberdade para todos os cidadãos praticaram a sua religião, na verdade isso não acontece e os cristãos são marginalizados a vários níveis. “Nós, [cristãos], estamos privados dos nossos direitos constitucionais. Nós não temos o direito de eleger o nosso representante na Assembleia Nacional e na Assembleia Provincial. Então, onde é que vamos para fazermos ouvir a nossa voz? Quando as pessoas tiverem conhecimento, através da Fundação AIS, do que está a acontecer no Paquistão, a nossa voz será ouvida na Europa e nos EUA”, garante.

Tal como é sublinhado no mais recente Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado a 21 de Outubro do ano passado, o Paquistão é um país onde “as leis da blasfémia foram violadas, levando a centenas de detenções e a vários linchamentos”. O país, classificado no Relatório da AIS na categoria de “perseguição”, a mais severa, registou no período em análise, de Janeiro de 2023 a Dezembro de 2024, diversas situações “persistentes de conversões e casamentos forçados de raparigas cristãs e hindus”.

“Centenas de cristãos” presos no Paquistão

Uma análise que Joel Amir corrobora plenamente, sublinhando que o mau uso da Lei da Blasfémia é um dos problemas mais sérios que a comunidade cristã enfrenta actualmente.

É muito fácil dizer que alguém cometeu blasfémia e ninguém vai esperar para perceber ou encontrar provas. Tal como aconteceu em Jaranwala, [em Agosto de 2023], quando dois irmãos cristãos foram acusados de blasfémia. O que aconteceu? Eles imprimiram um papel, um comentário ultrajante contra o profeta e o Corão, e até usaram as imagens dos dois irmãos cristãos, e colocaram-nos na porta das casas cristãs. Depois, começaram a anunciar na mesquita, ao microfone, que eles tinham cometido blasfémia. E, em pouco tempo, milhares de pessoas reuniram-se em Jarawala e queimaram mais de 200 casas e mais de 20 igrejas. Todos têm conhecimento disto. É esta a mentalidade.”

“Se alguém for acusado de ter cometido uma blasfémia, por exemplo, tem de haver um julgamento justo, tem de haver uma investigação justa. Se essa pessoa realmente cometeu uma blasfémia, então temos de seguir a lei do país. Mas a maioria dos casos, eu defendi mais de 99 pessoas, acredito verdadeiramente que são falsos e é tudo baseado em vingança pessoal”, assegura.

E diz ainda, à Fundação AIS, estar plenamente convicto de que muitos cristãos estarão presos injustamente por causa da foram abusiva como esta lei está a ser seguida no Paquistão. “São às centenas, às centenas… E até há muitos casos que se desconhecem…”

Por tudo isto, sublinha Joel Amir Sahotra, é muito importante tudo o que se puder fazer em favor dos cristãos do Paquistão. E a Igreja, tal como Portugal, podem desempenhar um papel importante neste activismo em favor dos direitos humanos, dos direitos da comunidade cristã paquistanesa. “Portugal é um país importante na Europa. Então, se Portugal ou a Assembleia da República, ou a Igreja, como estamos no secretariado da Fundação AIS, se erguerem a voz em favor da comunidade cristã, isso seria muito importante para nós. Aquilo que queremos é que sejam a nossa voz. Nada mais.”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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