NIGÉRIA: Igreja Católica intensifica pressão sobre o executivo governamental devido ao aumento da violência

Nos últimos dias, várias organizações católicas e dioceses apelaram ao governo para enviar mais militares e polícias para conter o derramamento de sangue e a criminalidade que assola grande parte do país, e que se agravou após uma nova onda de ataques que deixaram centenas de mortos e muitas pessoas sequestradas nas regiões norte e central da Nigéria.

Um catequista, a sua esposa, que está grávida, e outras 30 pessoas foram sequestradas em Kadarko, na região de Kadarko, nesta terça-feira, dia 10, no estado de Kaduna, no centro-norte da Nigéria. O catequista, afirma a agência Fides, trabalha na paróquia local de São José.

O sequestro em massa ocorreu durante a madrugada, quando um grupo de bandidos armados invadiu a zona. Exactamente uma semana antes, a 3 de Fevereiro, mais de 160 pessoas foram massacradas em Woro, no estado de Kwara, no Cinturão Médio da Nigéria. De acordo com relatos publicados na imprensa, as vítimas eram na sua maioria muçulmanos e foram mortos por militantes jihadistas por se terem recusado a abraçar a versão extremista do Islão que eles advogam.

Este incidente segue-se a vários outros, também violentos, e ocorridos já nas primeiras semanas de 2026. Em comunicados diversos, tanto o Secretariado Católico da Nigéria, como várias províncias eclesiásticas do Norte e ainda a Diocese de Kontagora apelaram ao reforço imediato das forças de segurança e à criação de novas bases militares nas áreas mais afectadas.

“Onda implacável de assassinatos”

O Secretariado Católico da Nigéria (CSN), que é o braço administrativo e executivo da Conferência Episcopal Católica da Nigéria, publicou uma declaração no sábado, 7 de Fevereiro, em que condena a “onda implacável de assassinatos e sequestros que continuam a assolar” o país.

“A recorrente carnificina tornou-se uma mancha na consciência da nossa nação. Como se pode justificar que, fora de uma situação de guerra, mais de 160 civis inocentes tenham sido massacrados num ataque coordenado em Woro, no estado de Kwara? Como podemos explicar os repetidos assassinatos e sequestros em Agwara e Tungan Gero, no estado de Níger, o extermínio de comunidades agrícolas inteiras em Katsina e Kaduna e a violência contínua em Borno? Isto não é ‘instabilidade’, mas um massacre permitido pelo silêncio e uma traição ao direito de todos os nigerianos de viverem em paz”, pode ler-se no documento, que foi enviado à Fundação AIS Internacional.

Várias exigências ao governo

O CSN faz várias exigências ao Governo, nomeadamente que intensifique “os esforços na redistribuição das forças de segurança (…) para as verdadeiras linhas da frente, onde os cidadãos estão sitiados” e que consiga “identificar, expor e processar os patrocinadores e facilitadores do terror, independentemente do seu estatuto político, religioso ou social”.

No documento exige-se ainda que as autoridades “prendam e punam todos os autores de violência” e “prestem ajuda urgente, cuidados psicossociais e indemnização às vítimas e suas famílias, enquanto protegem e reconstruem as comunidades destruídas para restaurar a esperança e a dignidade dos naturais da terra”.

Por fim, o CSN exorta “todos os nigerianos a rejeitar o ódio e a violência e a permanecerem firmes na solidariedade uns com os outros”.

Terras agrícolas são locais de perigo

As províncias eclesiásticas de Kaduna, Abuja e Jos, que incluem mais de 20 dioceses no norte da Nigéria, também emitiram um apelo conjunto nos últimos dias, afirmando que “os incidentes persistentes de sequestro para obtenção de resgate, assassinatos de cidadãos inocentes, invasão e ocupação de comunidades agrícolas e deslocamento generalizado criaram medo, trauma e profunda incerteza entre o nosso povo”.

“As terras agrícolas, destinadas a sustentar a vida, tornaram-se cada vez mais locais de perigo, obrigando muitos agricultores a abandonar os seus meios de subsistência e agravando assim a fome e a pobreza”, refere-se no documento.

Uma sociedade não pode prosperar onde a vida humana é continuamente ameaçada. Por isso, apelamos a todos os níveis do governo e às agências de segurança para que intensifiquem os esforços no sentido de proteger vidas e propriedades, pois a paz só pode perdurar onde a justiça é respeitada.”

Este documento, enviado à Fundação AIS Internacional, recorda o sequestro do Padre Emanuel Ezema, da diocese de Zaria, em Dezembro do ano passado. O comunicado foi publicado antes de ter ocorrido o sequestro do Padre Nathaniel Asuwaye, da diocese de Kafanchan, entre os dias 7 e 8 de Fevereiro.

De acordo com as últimas informações recebidas pela fundação pontifícia, o Padre Ezema foi sequestrado juntamente com mais oito leigos durante um ataque que causou a morte a pelo menos três outras pessoas.

Mais incidentes já em 2026

De acordo com relatos na imprensa, outros incidentes ocorreram já 2026, incluindo um ataque na aldeia de Kasuwan-Daji, localizada no estado de Níger, que causou a morte de cerca de 30 pessoas e muitos sequestrados. Os “bandidos armados”, como são descritos pelas autoridades, também profanaram um complexo católico nas proximidades.

O Bispo Bulus Yohanna, de Kontagora, cuja diocese cobre uma parte substancial do estado do Níger, também um apelo ao governo, pedindo que instalasse uma base militar na região para garantir a segurança das populações. Na sua diocese,  recorde-se, 320 pessoas foram sequestradas de uma escola católica em Papiri, em Novembro do ano passado. Na declaração, o prelado apela à criação de “uma base militar totalmente equipada (…) capaz de perseguir e neutralizar grupos armados sempre que estes saem dos seus esconderijos” e ao governo para que “destine pessoal de segurança adequado, forneça os recursos necessários e trabalhe com as partes interessadas locais para restaurar a paz”.

Na mesma declaração, também enviada à AIS, o bispo agradece ao governo pela cooperação que resultou na libertação e no regresso a casa de todas as crianças e funcionários sequestrados da Escola St. Mary, em Papiri, enquanto o governador do estado de Kaduna afirmou que 183 cristãos, sequestrados em três incidentes diferentes nas últimas semanas, também foram libertados ou resgatados.

Denúncia do Bispo de Sokoto…

Também o Bispo de Sokoto fez uma denúncia semelhante. Falando na terça-feira, dia 3, na apresentação da biografia do governador do estado de Adamawa, Ahmadu Fintiri, o prelado referiu que esta onda de violência não tem paralelo em mais nenhum outro país. “Não há nenhum outro país onde, na segunda-feira, morram 10 pessoas, na terça-feira 50, e na quarta-feira 100, e isto continua assim, semana após semana. Como pode um país avançar assim?”, questionou D. Matthew Kukah, citado pela agência de notícias Fides, do Vaticano. “O que está a acontecer na Nigéria não pode ocorrer no Sudão, Camarões, Níger, Gana ou em qualquer outro país do mundo”, acrescentou.

O Bispo criticou, no entanto, a forma como as notícias sobre os assassinatos e sequestros de pessoas têm vindo a ser divulgadas, com base no que referiu serem “critérios jornalísticos”. O prelado alertou que há o risco de este tipo de narrativas fazer aumentar a desconfiança entre comunidades e que esta questão deve ser abordada a nível político e institucional com a participação de líderes religiosos comunitários.

…e também do Papa Leão XIV

Os níveis de violência na Nigéria levaram, entretanto, o Papa Leão XIV a condenar a violência durante a sua oração semanal do Angelus, em Roma.

É com tristeza e preocupação que tomei conhecimento dos recentes ataques contra várias comunidades na Nigéria, que causaram uma grande perda de vidas. Expresso a minha proximidade em oração a todas as vítimas da violência e do terrorismo. Da mesma forma, espero que as autoridades competentes continuem a trabalhar com determinação para garantir a segurança e a proteção da vida de todos os cidadãos.”

A Fundação AIS considera há muito a Nigéria como um país prioritário e desenvolve vários projectos de apoio à Igreja local, especialmente no norte do país. A instituição pontifícia apela a todos os seus amigos e benfeitores para que continuem a rezar pela Nigéria, para que este país possa experimentar a paz e a justiça que tanto têm faltado nos últimos anos.

Filipe D’Avillez e Paulo Aido

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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Relatório da Liberdade Religiosa

A liberdade religiosa na Nigéria está gravemente ameaçada. As vítimas são predominantemente cristãs, mas também muçulmanas e de religiões tradicionais, líderes religiosos e fiéis que sofrem às mãos dos terroristas, grupos armados jihadistas e criminosos nacionais e transnacionais.

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