D. Inácio Kaigama, Arcebispo de Abuja, esteve presente ontem em Madrid, no lançamento de uma campanha do secretariado espanhol da Fundação AIS de apoio à Igreja da Nigéria. Na ocasião, o prelado referiu que a Nigéria, palco de violência crescente por parte de grupos terroristas e de organizações criminosas, “está a sangrar, ferida e destruída”. A campanha da fundação pontifícia de apoio à Igreja deste que é o país mais populoso de África, tem como objectivo ajudar a comunidade cristã para que “a perseguição não tenha a última palavra”.
A escalada da violência nos últimos meses na Nigéria tem sido implacável e a crise de insegurança atingiu já níveis sem precedentes. Além do já tristemente célebre grupo terrorista Boko Haram, que actua essencialmente no norte do país, têm ocorrido massacres em aldeias cristãs também da responsabilidade dos pastores nómadas fulani, cada vez mais radicalizados, além do aumento também muito intenso de actividades de grupos criminosos.
Exemplo desta onda de violência recente, é o massacre de 259 cristãos na aldeia de Yelewata, em Junho do ano passado, o sequestro de 265 estudantes de uma escola em Papiri, em Novembro, e o rapto de 172 pessoas em Kaduna. A acrescentar a isto, ao longo da última década mais de duas centenas de sacerdotes foram também raptados na Nigéria.
É neste cenário de violência e perseguição que a Fundação AIS de Espanha lançou ontem, 18 de Março, em Madrid, com a presença do Arcebispo de Abuja, a campanha Sana Nigeria: que la persecución no tenga la última palabra, (Cure a Nigéria: que a perseguição não tenha a última palavra).
Na ocasião, D. Inácio Kargama afirmou que “a Nigéria está a sangrar, ferida e destruída”, e que “corremos o risco de perder a nossa fé”. O prelado enfatizou por diversas vezes a importância da iniciativa do secretariado espanhol da fundação pontifícia.
Estou aqui para testemunhar que a realidade da Nigéria relatada pela AIS e por esta campanha é verdadeira. Existe uma estratégia para frustrar nossa missão. Eles estão instigando o medo nos nossos sacerdotes, sequestrando-os repetidamente. Estão a visar também os leigos que frequentam a missa, bombardeando-os e atacando-os, impedindo que se reúnam. Há um programa islamista para reduzir a presença cristã na Nigéria.”
Segundo o prelado, três sacerdotes da sua diocese estão em cativeiro e apelou às orações de todos pelo fim da violência terrorista e criminosa no seu país. “A oração pode curar todos os problemas. O nosso povo é muito devoto à Virgem Maria e por meio da sua intercessão, esta guerra será vencida”, disse, concluindo: “Ela fará tudo o que for possível”.
Um alerta também em Portugal
O Padre Bernard Adukwu, missionário espiritano nigeriano que está a viver em Portugal e que já participou em iniciativas da Fundação AIS no nosso país, denuncia também este ambiente de perseguição num artigo publicado este mês de Março na MissãoPress, conjunto de publicações da imprensa missionária. E refere em particular o massacre em Yelewata.
“A noite de 13 de Junho de 2025 foi uma noite cruel, horrível e inesquecível para a comunidade de Yelewata. Mais de 200 pessoas foram exterminadas nesta noite cruel (a maioria eram idosos, mulheres e crianças), e muitas foram raptadas”, escreve o sacerdote, acrescentando que Yelewata é uma comunidade pequena, com cerca de 5 mil habitantes, no estado de Benue, dos quais, diz, 99,8% são cristãos. E assegura ainda que “a situação desta comunidade piorou” após o Bispo de Makurdi ter testemunhado estas perseguições perante o congresso dos Estados Unidos.
Agora, diz ainda o padre Adukwu, “os cristãos desta localidade estão a viver momentos complicados: muitas pessoas deslocadas das suas casas, casas queimadas, crianças separadas das famílias”, descreve. É assim em Yelewata, no estado de Benue, e é assim também no estado de Kaduna, situado no norte da Nigéria e que tem também uma população cristã significativa. Mas também aqui, relata ainda o padre espiritano na revista missionária portuguesa, os cristãos sofrem “perseguição sistemática”, com inúmeros episódios de “ataques aos lugares de culto, raptos e muitas igrejas queimadas”.
Em Janeiro deste ano, explica ainda o sacerdote, “mais de 160 cristãos foram raptados na igreja”, depois de extremistas que apareceram em grande número terem cercado o edifício, impedindo a fuga dos fiéis. No entanto, apesar de tudo isto, o sacerdote termina o seu artigo com a certeza de que os cristãos não são esquecidos, “Na verdade, somos perseguidos, mas não desamparados”, disse.
A Fundação AIS apoia a Igreja da Nigéria desde há muito. Só no ano passado, foram disponibilizados mais de 3 milhões de euros para projectos pastorais, de emergência, de construção e de formação.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










