MOÇAMBIQUE: Bispo de Pemba descreve o “sofrimento dos cristãos” face à violência terrorista em Cabo Delgado

Desde 2017, quando começaram os ataques terroristas em Cabo Delgado, “mais de 300 católicos foram mortos, a maioria por decapitação”, assegura o Bispo de Pemba à Fundação AIS. Só no ano passado, foram mortos 35 cristãos, entre catequistas, animadores paroquiais e fiéis. O prelado refere ainda que desde o início da violência jihadista foram destruídas 117 igrejas e capelas, das quais 23 apenas durante o ano de 2025. Estes dados partilhados com a AIS, foram apresentados directamente ao Cardeal Parolin, que esteve em Moçambique, em Dezembro, em representação do Papa Leão.

Durante a visita a Moçambique, entre os dias 5 a 10 de Dezembro, o Cardeal Piero Parolin fez questão de deslocar-se a Cabo Delgado, o epicentro da violência jihadista neste país africano de língua oficial portuguesa. Foi aí, na Diocese de Pemba, que o Secretário de Estado do Vaticano escutou de viva-voz testemunhos de pessoas que sofreram na pele o terror dos homens armados que reivindicam pertencer ao Estado Islâmico de Moçambique e que, desde Outubro de 2017 já causaram mais de 6300 mortos e mais de 1 milhão de deslocados.

Foi uma visita curta no tempo, mas intensa em emoções, com o representante do Papa Leão a encontrar-se com vítimas directas da violência terrorista, como foi o caso de um cristão que relatou a perda de um tio e de três irmãos, todos assassinados em Cabo Delgado.

Mas o Cardeal Parolin ouviu também o relato de sacerdotes e religiosas que cumprem a sua missão em lugares menos seguros, arriscando também aí a própria vida. O Cardeal escutou de todos, padres, religiosas, catequistas e deslocados, o que significa ser Igreja “num contexto de violência jihadista, uma igreja perseguida, uma igreja em sofrimento”, descreveu D. António Juliasse à Fundação AIS, sumarizando o que de mais importante aconteceu nessa visita.

O que o Bispo de Pemba relatou ao Secretário de Estado do Vaticano – e que partilhou entretanto com a Fundação AIS – é um documento importantíssimo para se perceber a dimensão da violência terrorista no norte de Moçambique e a forma como as comunidades cristãs têm sido atacadas.

Diocese de Pemba, uma Igreja perseguida

A viagem a Cabo Delgado foi muito desejada pelo Cardeal Parolin, como um abraço pessoal, dele, e também um abraço do Papa Leão XIV a este povo sofrido de Cabo Delgado.”

Ainda recentemente, no passado dia 9 de Janeiro, na apresentação de cumprimentos ao Corpo Diplomático acreditado na Santa Sé, o Papa denunciou a perseguição contra milhões de cristãos no mundo nos dias de hoje, e entre outros países e regiões onde isso acontece, lembrou precisamente as “vítimas da violência jihadista em Cabo Delgado”.

Visitar Cabo Delgado era um dos motivos da visita a Moçambique – visita que teve como pretexto oficial a comemoração dos trinta anos das relações diplomáticas com a Santa Sé. Ir a Cabo Delgado, referiu D. Juliasse, significou uma agenda apertada, uma viagem de duas horas e meia de avião desde Maputo até Pemba, onde o Cardeal esteve entre os dias 8 e 9 de Dezembro. O Secretário de Estado do Vaticano reuniu com as autoridades da província, mas foi no encontro com as equipas da Pastoral da Diocese de Pemba que escutou testemunhos do que “significa ser igreja num contexto de violência jihadista”. “Uma igreja perseguida, uma igreja em sofrimento, o quadro real do sofrimento dos cristãos”, sintetizou D. António Juliasse.

Mais de 300 cristãos mortos desde 2017

E foi o próprio Bispo de Pemba quem elucidou o número dois do Vaticano – com dados que partilhou também com a Fundação AIS – sobre as implicações impressionantes para a comunidade cristã da presença no território de grupos armados que reivindicam pertencer à organização Estado Islâmico de Moçambique.
“As estatísticas do país, feitas em 2017, referem que na província de Cabo Delgado os católicos são um pouco mais de 815 mil. Ora, boa parte destes católicos foram forçados já a fugir das suas aldeias, das suas comunidades. Alguns retornaram depois de algum tempo de estarem como deslocados internos e outros permaneceram nos novos campos, nos campos de deslocados internos, que agora foram denominados como campos de reassentamento”, explicou o prelado.

“Foi igualmente informado o Cardeal Parolini, que, desde o início da guerra, em 2017, as comunidades cristãs, católicas, registaram mais de 300 católicos mortos, a maioria por decapitação. Tendo também nos seus registos um número considerável de cristãos católicos que são tidos como desaparecidos até este momento. Neste ano de 2025, foram mortos 34 cristãos católicos, entre catequistas, animadores e fiéis”, relatou o Bispo de Pemba.

“Desde o início da guerra, três igrejas principais das sedes paroquiais foram destruídas, conjuntamente com as infraestruturas da paróquia. Além destas, outras 114 igrejas e capelas das comunidades cristãs foram destruídas, das quais 23 foram destruídas no ano de 2025”, acrescentou o prelado, dizendo ainda que tudo isto traduz “o medo e o terror que os cristãos sentem”.

Bispo destacou solidariedade da AIS

Na curta, mas intensa passagem por Cabo Delgado, o Secretário de Estado do Vaticano teve, acima de tudo, o ensejo de conhecer a força e a coragem dos cristãos que vivem a sua fé arriscando a vida diariamente numa das regiões mais perigosas do planeta. “Foi um momento muito bom, o encontro entre o cardeal e o pessoal da pastoral da Diocese de Pemba”, diz D. Juliasse, salientando ainda como ponto alto a visita a um dos campos de deslocados que existe na região.

O Cardeal “visitou o acampamento, onde saudou os deslocados quase um por um, apertando-lhes as mãos e abençoando as suas crianças, num gesto quase que querendo abraçar cada um e tocar solidariamente as suas mais profundas feridas, para também participar do mesmo sofrimento e da mesma esperança”. “A visita ao campo de deslocados foi especialmente muito emocionante e tocante”, sintetiza o Bispo.

Na passagem por Pemba, o Cardeal Parolin ouviu falar também da Fundação AIS e do apoio que tem sido dado à Igreja local. É que o Bispo falou sobre os apoios materiais que a Diocese tem recebido de diversos parceiros, dos quais destacou “a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e que tanto possibilitam amparar os mais necessitados, entre tantos deslocados e outros vítimas da guerra”. No entanto, essas ajudas, afirmou também o Bispo, têm-se revelado insuficientes face à dimensão das necessidades humanitárias que a violência jihadista tem desencadeado, e por isso, acrescentou D. Juliasse, “continuamos a solicitar a cada colaborador da Ajuda à Igreja que Sofre uma partilha generosa para que muitos necessitados ou mais necessitados no mundo possam ser socorridos”, concluiu o Bispo de Pemba.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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