É, provavelmente, o país mais pobre do mundo. É, certamente, um dos mais violentos. Gangues armados têm o controlo quase completo da capital, a cidade de Port-au-Prince, e somam-se os episódios de ataques, assaltos, assassinatos e raptos de pessoas. Neste país caribenho, ninguém está a salvo. A própria Igreja não tem escapado à violência.
É neste cenário de terror e desolação que vamos encontrar a Irmã Rosalina Martins, das Missionárias do Espírito Santo. “Trabalhamos com pessoas emocionalmente frágeis e moralmente abatidas. As pessoas estão traumatizadas, cansadas e estão cansadas de sofrer”, confessa à Fundação AIS.
Há pouco mais de um mês e meio, no passado dia 6 de Janeiro, falando para o Corpo Diplomático creditado no Vaticano, o Papa Leão XIV referiu-se a alguns países e regiões do planeta onde há situações dramáticas, guerra, violência, pobreza, perseguição às populações. Um dos países que referiu foi o Haiti. Na ocasião, o Santo Padre alertou os embaixadores para a “dramática situação” que se vive no Haiti, “marcada por todo o tipo de violência, desde o tráfico de seres humanos a exílios forçados e sequestros”. E pediu o apoio da comunidade internacional para que o país possa o mais rapidamente possível restabelecer a ordem democrática e pôr fim à violência e alcançar a paz.
De facto, há muitos anos que o Haiti é um país problemático, mas tudo de alguma forma descambou ainda mais com o assassinato, a 7 de Julho de 2021, do presidente Jovenel Moïse. Desde então, o descalabro parece imparável. Exactamente 16 dias antes da morte a tiro de Moïse, chegava ao Haiti, vinda de Cabo Verde, a Irmã Rosalina Gabriela Martins. A religiosa da Congregação das Irmãs Missionárias do Espírito Santo nunca conheceu verdadeiramente um tempo de tranquilidade no Haiti. A sua missão, na Diocese de Jacmel, no sudeste do país, apesar de um pouco distante do turbilhão que se tem vivido na capital, a cidade de Port-au-Prince, reflecte o ambiente de medo e pobreza que caracteriza hoje em dia todo o país.
Trabalhamos com pessoas emocionalmente frágeis e moralmente abatidas. As pessoas estão traumatizadas, cansadas; sofrem e estão cansadas de sofrer. Quando uma pessoa é raptada, a família vende tudo o que tem para a libertar. E, por vezes, fazem empréstimos para completar o necessário para conseguir a libertação. Quando se trata de famílias pobres, o cenário é ainda mais complicado.”
Irmã Rosalina Martins
Pessoas de mãos vazias e que pedem ajuda
“No ano passado, mas também em 2023 e início de 2024, muitas pessoas batiam à nossa porta a pedir ajuda. Tinham fugido sem um destino concreto e vieram para a área de Jacmel de mãos vazias. Vinham pedir ajuda em termos de alimentação, saúde e medicamentos. Ajudávamos – e ajudamos – com o pouco que temos, que também provém das ajudas que recebemos dos nossos benfeitores estrangeiros. Essas pessoas contam-nos o drama que viveram em Croix-des-Bouquets e o percurso que fizeram para escapar à tragédia e chegar a Jacmel”, relata a irmã cabo-verdiana.
O drama a que se refere foi o ataque, em Março de 2024, à cidade de Croix des Bouquets, situada a cerca de 12 km da capital haitiana, em que gangues armados invadiram a prisão local, permitindo a fuga a mais de 3 mil presos, alguns considerados como “muito perigosos”. Uma outra prisão, em Port-au-Prince, foi também alvo de ataque.
Em ambos os locais, ocorreram assassinatos e sequestros de várias pessoas. Esses foram tempos excepcionalmente difíceis, pois as irmãs viram-se confrontadas com inúmeros pedidos de ajuda. Tantos, que ultrapassaram a capacidade de resposta da missão local da Igreja Católica. “Na nossa escola, acolhíamos muitas crianças dessas famílias. Eram tantas que não podíamos receber todas. A irmã directora da escola reuniu-se com os outros directores das escolas da região e, juntos, conseguiram encontrar uma resposta adequada e integrar todas as crianças nas escolas”, explica a religiosa.
Mas se esses tempos em Março de 2024 foram excepcionais em violência, a verdade é que é raro o dia em que não há algum sobressalto perante a notícia de um ataque, de mais um rapto, de mais violência, morte e sofrimento. “A Igreja do Haiti é uma igreja sofredora, vulnerável”, sintetiza a irmã à Fundação AIS. “Vulnerável, porque não consegue fazer face a esta tragédia, não consegue realizar a sua missão como deveria. Em Croix-des-Bouquets, por exemplo, mais de 50 paróquias estão fechadas. Isto significa que o povo está privado de celebrar, de alimentar a sua fé. Nós, as congregações religiosas, cada uma no seu cantinho, no seu meio restrito, faz o que pode. Não se pode movimentar muito, não se pode deslocar”, lamenta.
O assassinato das Irmãs Onezaire e Voltaire
A situação é tão grave que ninguém pode considerar-se a salvo. Nem sequer padres ou religiosas. E já houve casos dramáticos como em Abril do ano passado, com um autêntico massacre de dezenas de pessoas em Mirabalais, em que duas irmãs foram também assassinadas.
Rosalina Martins recorda. “Numa das regiões, Mirabalais, que fica a 50 quilómetros de Croix-des-Bouquets, no mês de Abril de 2025 houve um massacre e duas religiosas morreram no meio do povo. O mais doloroso é que a congregação não teve acesso aos corpos para lhes dar um funeral digno. E isto é muito triste. Confiamos em Deus e contamos com a acção da comunidade internacional para pôr fim a este sofrimento”, afirma.
Esta história, que a Fundação AIS noticiou em Abril do ano passado, correu mundo e permitiu perceber, no seu horror, como o Haiti caiu no fundo, mergulhou numa violência irracional em que nada nem ninguém está a salvo. As duas religiosas, a Irmã Evanette Onezaire e a Irmã Jeanne Voltaire, estavam em missão na cidade de Mirebalais quando, devido aos ataques de gangues armados, foram obrigadas a refugiar-se com outras pessoas numa casa. Infelizmente, os atacantes descobriram o esconderijo e mataram todo o grupo.
Na ocasião, D. Max Leroy Mésidor, Arcebispo de Port-au-Prince, afirmava à Fundação AIS, que o Haiti é um país “em chamas”, e que precisa urgentemente de ajuda, lembrando que, por força dos ataques dos gangues armados, muitos “padres foram obrigados a fugir, procurando refúgio junto das suas famílias ou de outros membros do clero”. “Precisam de ajuda. A arquidiocese também está em dificuldades”, explicava o arcebispo. Foi há um ano.
A situação mantém-se praticamente inalterada
A Irmã Rosalina Martins conhece bem esta realidade. Em missão no Haiti desde Junho de 2021, ela tem assistido a esta descida aos abismos de um país cuja capital está nas mãos de gangues armados. “Cheguei no dia 21 de Junho de 2021 e, no dia 7 de Julho, três semanas depois, o presidente Jovenel Moïse foi assassinado. Desde então, a situação do país tem vindo a degradar-se dia após dia e hoje o Haiti encontra-se no auge da crise em todos os sentidos”, explica. Mas a crise não começou com o assassinato de Moïse. É preciso recuar alguns anos, até porque desde 2017 que não se realizam eleições.
“A capital, que é o centro de circulação de bens e serviços, está quase na sua totalidade nas mãos dos gangues. O aeroporto internacional está fechado desde 11 de Novembro de 2024 e esta situação afecta grandemente a nossa missão, a missão da Igreja”, afirma a irmã.
E o relato da desgraça continua, como um lamento. “Foram muitos os missionários, religiosos, religiosas, padres e leigos que foram raptados ao longo destes anos. Outros foram mortos. As grandes instituições da Igreja – escolas, colégios, hospitais – foram atacadas pelos gangues. O Colégio São Marcial, que pertence aos Padres Missionários do Espírito Santo, uma instituição de renome que formou muitos quadros do país, foi atacado, queimado, vandalizado, completamente destruído. O mesmo aconteceu ao hospital das Irmãs de Madre Teresa de Calcutá. Todos sabemos do serviço que esta congregação oferece à população. Este hospital atendia cerca de 30 mil pessoas por ano e também foi vandalizado, queimado, completamente destruído”, diz a irmã num testemunho que reforça as palavras de há um ano do Arcebispo de Port-au-Prince à Fundação AIS.
“A maioria das comunidades religiosas na capital foi fechada. Os missionários abandonaram tudo e partiram para outros departamentos”, mas isso, felizmente, não aconteceu em Jacmel, onde as Missionárias do Espírito Santo têm uma casa.
A missão da Igreja junto dos pobres em Jacmel
“A nossa missão é uma missão de proximidade. Trabalhamos muito sobre o terreno, vamos ao encontro das famílias onde elas estão. Fazem parte do nosso quotidiano; partilhamos as suas tristezas e alegrias”, diz a irmã cabo-verdiana. Jacmel é uma zona rural, onde vive uma população empobrecida, que depende de uma agricultura de subsistência e enfrenta desafios diários como falta de água potável, ausência de energia eléctrica e escassez de combustível.
É neste contexto que as religiosas – ao todo são cinco irmãs de diferentes nacionalidades – realizam o seu trabalho missionário. “Estamos presentes em duas paróquias. Uma das nossas casas está localizada na montanha. Ali temos um jardim-de-infância com mais de 150 crianças. Temos uma escola que vai do primeiro ao nono ano e, em 2025 abrimos um novo ciclo que vai do décimo ao décimo segundo ano. Temos um centro de nutrição; acompanhamos as crianças desnutridas e as suas mães. Temos também um centro de acompanhamento de crianças e jovens portadores de deficiência física ou motora. Estamos integradas na pastoral da paróquia”, descreve a irmã.
“Visitamos os doentes, acompanhamos os jovens, acompanhamos as crianças na catequese. Estamos integradas nos grupos corais, na equipa de liturgia, etc. A nossa segunda comunidade está localizada nas periferias da vila. Também aí temos um centro de nutrição. Fazemos pastoral na prisão e as restantes actividades desenvolvem-se ao nível da paróquia, isto é, acompanhamos os diversos grupos paroquiais”, conclui.
Um trabalho que só é possível graças ao apoio generoso que recebem do exterior, de pessoas ou instituições como a Fundação AIS.
“A nossa missão aqui no Haiti é assegurada pelas ajudas externas. Por isso, aproveitamos para agradecer a todos os nossos benfeitores, a todas as instituições que nos têm ajudado, às fundações e, sobretudo, agradecemos à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que muito tem ajudado a Igreja do Haiti e de quem também contamos receber apoio para os projectos que estão em curso”, diz, a finalizar, a Irmã Rosalina Gabriela Martins, uma cabo-verdiana em missão num dos países mais perigosos do mundo.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










