CUBA: Escassez de combustíveis agrava crise no país e bispos adiam visita ‘ad limina’ ao Vaticano

A crise agudiza-se em Cuba

A visita ‘ad limina’ dos bispos cubanos ao Vaticano, que deveria estar a decorrer neste momento, foi adiada devido ao agravamento da situação socioeconómica do país. Cuba atravessa uma forte crise energética após o presidente dos Estados Unidos ter emitido uma ordem executiva ameaçando impor tarifas aos países que fornecem petróleo a Havana. A crise agudiza-se e o governo português já desaconselha viagens à ilha… Neste contexto, a directora da Fundação AIS pede “aos portugueses que rezem e ajudem também a Igreja que tanto sofre em Cuba”…

Devia ter começado nesta segunda-feira, dia 16 e iria prolongar-se até sexta, 20, mas devido ao agravamento da situação socioeconómica, que está a gerar muita “instabilidade e incerteza”, os bispos cubanos pediram ao Papa para adiar a visita ‘ad limina’ ao Vaticano. Poucos dias antes, a 13 de Fevereiro, o governo português publicou uma nota a desaconselhar viagens “não indispensáveis” a Cuba, devido ao “agravamento da escassez de combustíveis” neste país.

O alerta das autoridades nacionais, tal como o adiamento da visita dos bispos cubanos a Roma, ajudam a entender a situação de profunda crise em que se encontra a ilha caribenha logo após o afastamento do poder de Nicolas Maduro, na Venezuela, e depois de o presidente dos Estados Unidos ter emitido uma ordem executiva a ameaçar com tarifas todos os países que vendam petróleo a Cuba.

De facto, a prisão de Maduro, na sequência de uma operação militar dos Estados Unidos, a 3 de Janeiro, em Caracas, a capital da Venezuela, precipitou o fim do envio de combustíveis por este país para Cuba, o que permitia, embora de forma precária, o funcionamento da economia da ilha. Desde então, a situação agravou-se de forma exponencial. E os próprios bispos cubanos já vieram alertar para o “perigo real” de caos social e de violência em consequência do embargo aos combustíveis, tal como a Fundação AIS já noticiou.

Bispo alertam para risco de caos social

A mensagem dos bispos, dirigida a “todos os cubanos de boa vontade”, é um poderoso retrato do colapso que se está a viver em Cuba e importa ler o documento com atenção. “As notícias recentes, anunciando, entre outras coisas, a eliminação de qualquer possibilidade de entrada de petróleo no país, fizeram soar o alarme, especialmente para os mais vulneráveis”, escreveram os bispos na mensagem publicada no último dia de Janeiro e lida em todas as missas no país a 1 de Fevereiro.

O risco de caos social e violência entre os seus próprios filhos é real. Nenhum cubano de boa vontade acolheria isso com satisfação”, escreveram os prelados. Todo o documento retrata a enorme fragilidade em que Cuba se encontra e é simultaneamente um apelo aos responsáveis do país para que nas suas decisões não façam aumentar ainda mais o sofrimento do povo. 

“Quem escuta com atenção e respeito o sofrimento alheio percebe constantemente que as coisas não vão bem, que não podemos continuar assim”, pode ler-se na mensagem que é dirigida a todos os cubanos, mas, “sobretudo”, àqueles que têm “a maior responsabilidade de tomar decisões para o bem da nação”. 

Os Bispos cubanos afirmam ainda que o país precisa de mudanças – “e com crescente urgência” – pois não pode suportar “mais angústia ou sofrimento”. E pedem que se evitem novas dores e dificuldades, especialmente para os pobres, os idosos, os doentes e as crianças.

Escassez de medicamentos é muito grave

Passaram, entretanto, 18 dias desde que esta mensagem foi lida em todas as Igrejas cubanas. E a situação continua a deteriorar-se. Hoje, muitas famílias carecem até das necessidades mais básicas. Não há comida suficiente. Há escassez de produtos de higiene. A água potável é também escassa. Falta combustível para praticamente tudo, até para cozinhar.

A área da saúde não escapa também a esta situação de crise. A escassez de medicamentos é extremamente grave. Na nota publicada no ‘site’ do Ministério dos Negócios Estrangeiros em que se desaconselham as viagens à ilha, as autoridades portuguesas alertam também para o facto de, “recentemente”, terem-se registado em Cuba “surtos de vários vírus transmissíveis através de mosquitos, principalmente chikungunya e dengue, bem como de vírus transmissíveis por outras vias, como o da Hepatite A, geralmente transmitido através de consumo de água ou alimentos contaminados”.

A acrescer a tudo isto, a inflação continua imparável, tornando os preços, especialmente dos bens essenciais, cada vez mais proibitivos para os salários e pensões da generalidade da população, especialmente os mais idosos e doentes.

A esta situação soma-se ainda o êxodo em massa, nos últimos três anos, de quase dois milhões de pessoas, especialmente jovens e profissionais, deixando na ilha uma população envelhecida, com poucos recursos e menos apoio familiar.

“As nossas orações e solidariedade são vitais”

No entanto, no meio de todas estas dificuldades, a Igreja continua presente, continua a evangelizar, continua a visitar as famílias, os doentes, os que estão em maiores dificuldades, nomeadamente os presos e seus familiares, procurando apoiar todos a nível espiritual e material. “Apesar das limitações profundas em que se encontra o país, a Igreja não abandonou a sua missão”, afirma a directora do secretariado nacional da Fundação AIS. “Esta é uma realidade concreta que importa destacar”, diz Catarina Martins de Bettencourt.

A Igreja em Cuba está ao lado dos que mais sofrem, dos mais pobres, dos mais vulneráveis, dos mais necessitados. Os próprios padres e irmãs quase já não têm nada. Mas, no entanto, continuam a dar esse pouco a quem mais sofre. Partilham comida, acompanham famílias, secam as lágrimas dos que estão em maior sofrimento e mantêm-se próximos das suas comunidades.”

De facto, todos os projectos de desenvolvimento social e humano continuam a realizar-se, apesar das dificuldades, tal como se mantém a ligação muito próxima de padres e religiosas aos idosos que vivem sozinhos, aos que estão mais abandonados, aos sem-abrigo e às famílias em situação de extrema pobreza. “O exemplo destes sacerdotes, destas irmãs, de todos os leigos é assinalável”, sublinha Catarina Bettencourt.

Mas a crise afecta tudo e todos. Os projectos de caridade e de assistência pastoral da Igreja tornaram-se muito mais difíceis de manter no actual contexto. A falta de combustíveis, por exemplo, afecta directamente o transporte de padres ou irmãs que precisam de se deslocar para junto dos que vivem mais longe e estão mais isolados. E é perante este cenário que a responsável do secretariado nacional da Fundação AIS lança um apelo aos portugueses para rezarem por Cuba e ajudarem a Igreja que neste país procura socorrer os mais necessitados.

A ajuda à Igreja de Cuba é, por tudo isto, mais necessária agora do que nunca. As nossas orações e a nossa solidariedade são vitais. Acima de tudo, o que nos pedem de Cuba é a certeza das nossas orações. A Igreja pede que rezemos pelos padres, pelas irmãs, pela paz. Assim, e neste contexto tão adverso que ganha uma dimensão ainda mais especial por estarmos em plena Quaresma, peço aos portugueses que rezem e que ajudem também a Igreja que tanto sofre em Cuba”

Paulo Aido

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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