MOÇAMBIQUE: “Rezai por nós, ajudai-nos”, pede o Bispo de Nacala face aos ataques jihadistas no norte do país

D. Alberto Vera esteve em Espanha num evento da Fundação AIS e relatou como na sua diocese os ataques do grupo jihadista “Estado Islâmico” têm levado o terror às populações. O Bispo fala em “guerra maldita” e lembra vários casos de martírio de cristãos no final do ano passado, que foram decapitados por não renegaram a sua fé. E anunciou que no próximo ano vai avançar o processo de beatificação da Irmã Maria de Coppi, assassinada num ataque jihadista em Setembro de 2022.

Os ataques terroristas no norte de Moçambique começaram em Cabo Delgado, em Outubro de 2017, e foram-se expandindo para sul, atingindo já os territórios que correspondem às dioceses de Nampula e Nacala. Até hoje, calcula-se que os terroristas, que reivindicam pertencer ao grupo “Estado Islâmico de Moçambique”, já terão causado pelo menos 6 mil mortos.

Estes são os números oficiais, mas, para D. Alberto Vera, poderemos estar já perante cerca de 8 mil vítimas. O Bispo de Nacala participou na Catedral de Almudena, em Madrid, no final de Fevereiro, na Noite dos Testemunhos, evento organizado pelo secretariado espanhol da Fundação AIS, e relatou em primeira mão como tem sido trágica a vida neste país africano de língua portuguesa desde que os ataques terroristas começaram.

“Quem lhes entregou as armas? Quem organizou este exército, militarmente mais bem preparado do que o exército de Moçambique?” A pergunta permanece sem resposta, mas D. Alberto Vera dá pistas sobre o que está a acontecer. “É a maldição da riqueza. Em Cabo Delgado existe um tipo de rubi mais valioso do que os diamantes, pela sua cor, pela sua pureza. E em muitos lugares existem esses rubis. E há grafite, que se usa para as baterias, e descobriram ainda grandes bolsas de gás natural”, diz, lembrando que também na região há tráfico de droga, de heroína.

Quais são os efeitos desta maldita guerra? 8 mil mortos, cerca de 1.300.000 de deslocados, pessoas que tiveram de abandonar as suas terras, e que estão em campos de deslocados, em campos de reassentamento.”

O assassinato da Irmã Maria de Coppi

Ao longo dos anos, desde Outubro de 2017, desde a primeira incursão em Mocímboa da Praia, houve altos e baixos na actividade terrorista, mas alguns ataques ficaram na memória colectiva. Foi o que aconteceu na Diocese de Nacala na noite de 6 para 7 de Setembro de 2022, e que D. Alberto partilhou na Catedral de Almudena, em Madrid.

“A primeira notícia veio dos párocos da paróquia de São Pedro de Lúrio, em Chipene, que me comunicaram: ‘os terroristas estão a queimar a igreja, estão a destruir a casa das irmãs, estão a disparar’. E depois de duas ou três horas, todas as comunicações foram cortadas. A Irmã Maria de Coppi, de 82 anos, recebeu um tiro na cabeça e morreu naquele momento. Ela falava ao telefone com uma sobrinha, também da congregação comboniana, da Cúria Geral [e que estava em Itália]. O telefone caiu no chão. Um dos terroristas, quando entrou, colocou-o no bolso e por 30 minutos continuaram a ouvir tudo o que ali se passava, de tal forma que, de Itália, de Verona, me telefonou a Superiora Geral para me dizer: ‘assassinaram a irmã’.”

Assassinaram a irmã e deixaram ainda um profundo rasto de destruição na missão católica. “Queimaram tudo, a casa, os carros, todos os bens…” explicou o prelado. Na missão de Chipene estavam ainda outras irmãs e pelo menos dois sacerdotes italianos. Todos eles, ao contrário da religiosa italiana, conseguiram esconder-se a tempo e assim salvaram-se da fúria terrorista.

D. Alberto Vera fala da Irmã Maria de Coppi com profunda admiração. “Ela era uma mulher santa, uma mãe para o povo de Chipene e para mim, como bispo, nas três, quatro visitas que fazia por ano, lembro-me dela como uma mulher entregue a Cristo, uma mulher que conhecia a língua macua, que é muito difícil, que conhecia o seu povo a que se tinha entregue há 50 anos como missionária em Moçambique, plenamente entregue ao seu povo…”

Jovens cristãos martirizados no ano passado

A morte a tiro desta religiosa comoveu a comunidade cristã local e todos os que a conheciam na região. E desde então, como D. Alberto Vera relatou à Fundação AIS no início do ano passado, quando esteve de passagem por Lisboa, o túmulo da Irmã Maria de Coppi transformou-se num local de devoção de fiéis.

No próximo ano poderemos começar o seu processo de beatificação, porque ela é uma santa, uma santa que quis permanecer, apesar da idade, com o povo, até ao fim.”

Outro momento muito forte provocado pelos terroristas ocorreu também em Nacala. Foi no final do ano passado. “De Setembro de 2025 até Novembro tivemos duas incursões de terroristas na diocese. A primeira, em Setembro, foi para queimar igrejas, destruir aldeias, mas não houve mortes”, explicou o Bispo.

Mas tudo se agravou em Novembro. Houve 17 mortos, dos quais 12 cristãos. E alguns foram martirizados. “Um jovem foi visitar a sua família no sábado, dia 22 de Novembro, para uma cerimónia religiosa e, infelizmente, os terroristas entraram, mataram três muçulmanos a tiro, mataram outros três cristãos a tiro e este jovem, que tinha ido visitar a família, foi decapitado. Colocaram a cabeça dele no lugar onde está o altar e o corpo fora da capela, e também queimaram a capela”, disse.

Os terroristas, explicou ainda D. Alberto Vera, normalmente quando chegam a uma aldeia, “reúnem todos os habitantes que não conseguiram fugir, fazem-lhes um discurso sobre Alá, sobre a religião muçulmana, sobre os infiéis cristãos e ocidentais e, no final, perguntam aos que estão ali quem são os muçulmanos. A maioria é muçulmana, mas eles querem comprová-lo, querem ouvir alguma recitação do Corão, e quem diz uma oração é deixado em paz. Mas numa das aldeias, chamada Nakoto, estavam dois jovens valentes. Um disse: ‘sou católico, sou cristão, não o posso negar’. E o outro disse: ‘eu também’. Amarraram-nos e decapitaram-nos ali, perante todos, contou o Bispo. “São pessoas simples, camponeses, na sua maioria, muitos analfabetos, mas com uma fé firme”, descreveu ainda D. Alberto.

Terroristas querem instaurar um califado

Para o Bispo, esta insurgência terrorista é um absurdo. “O grupo, que pertence ao Estado Islâmico de Moçambique, quer instaurar um califado. E é um absurdo por que são um reduzido número de fundamentalistas. Assassinaram os seus próprios familiares nos primeiros anos e agora estão a destruir tudo o que tenha alguma semelhança com a cultura ocidental, escolas, centros de saúde, tudo… E estão a matar, a martirizar cristãos e todos aqueles que não se alinham com a religião muçulmana”, disse ainda, concluindo a sua intervenção com um pedido de orações de todos por Moçambique e também com um apelo à solidariedade para com a Igreja local.

“Peço-vos que rezeis, que nos tenhais nas vossas orações, porque creio que isso é o que nos dá força para continuar, para continuar a anunciar a Boa Nova do Reino e para continuar a defender os mais pobres e os mais humildes, defendendo os direitos humanos de todas as pessoas, seja qual for a religião. Rezai por nós, e ajudai-nos no que puderdes”, disse.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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