MOÇAMBIQUE: “Procuramos dar esperança às pessoas”, diz superiora das Irmãs da Imaculada Conceição

A Irmã Ermelinda Singua, superiora da primeira congregação religiosa nascida em Moçambique, fala do “testemunho heroico” de padres e irmãs que “arriscam a vida por amor ao Evangelho” no norte do país, onde é constante a presença ameaçadora de grupos terroristas. Mas a irmã fala também, em entrevista à Fundação AIS, de outras ameaças poderosas como a fome e a pobreza, que se fazem sentir na Diocese de Lichinga, onde estas religiosas acolhem 35 crianças órfãs. Mas, apesar de tudo, nada parece afastar a alegria desta irmã que até já teve de fugir de um leão quando levava, de motorizada, um bebé doente a um centro de saúde a quilómetros de distância…

“Este ano, a população teve de apanhar capim, um capim que parece trigo, teve de esmagá-lo, pô-lo a moer na pedra para conseguir comer alguma coisa. Isto é o extremo. Isto é o extremo da pobreza”, denuncia a Irmã Ermelinda Emílio Singua, à Fundação AIS, numa passagem recente por Lisboa.

A religiosa está a referir-se ao que aconteceu já este ano à população de Mecanhelas, em Lichinga, no norte de Moçambique. “As pessoas passam uma semana, duas semanas sem comer”, relata a superiora das Irmãs da Imaculada Conceição, a primeira congregação religiosa fundada neste país africano. Nesta região, a agricultura é de subsistência e depende muito do ciclo da chuva. “Por isso, há anos em que há muita fome. O pico da fome é normalmente em Outubro, Novembro, quando está tudo seco, quando não chove não há nada”, diz a irmã. “Quem não tem dinheiro, não tem comida”, acrescenta.

A pobreza é apenas um dos problemas mais graves na província de Niassa, que corresponde à Diocese de Lichinga. A ameaça terrorista, que tem o seu epicentro na província de Cabo Delgado, ali ao lado, é outro factor de enorme instabilidade.

CAMPOS DE DESLOCADOS, HISTÓRIAS DE MISÉRIA

Os ataques, de grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, a organização jihadista Estado Islâmico, já provocaram mais de 5 mil mortos e mais de 1 milhão de deslocados desde Outubro de 2017. Muitos fugiram, abandonando tudo o que tinham, tal a violência e o horror que presenciaram, e vivem hoje em campos de deslocados.

Também em Lichinga, tal como em Cabo Delgado, há fugitivos, pessoas que vivem hoje praticamente dependentes da caridade. E as irmãs têm procurado acolhê-los nas suas necessidades mais básicas. São pessoas que estão sem nada e vivem com a memória carregada de medo.

“É notório ver a tristeza das pessoas”, denuncia a irmã que ainda em Março deste ano esteve em Pemba, a visitar alguns dos campos de deslocados que há nesta diocese onde a violência terrorista tem tido a sua máxima expressão. “Visitei dois campos que há em Chiúre”, recorda.

Quando olhei para a cara das pessoas, estavam tristes. Sentem-se fora do seu ‘habitat’, fora de casa. Perderam tudo, perderam familiares… E o mais notório é que há mais mulheres do que homens, porque eles foram mortos ou foram levados [pelos terroristas]”.

“E nesses campos de deslocados, aquilo que me disseram é que há uma prevalência de casamentos prematuros”, descreve a irmã. “Então, vêem-se meninas de 10, 14 anos, que já são esposas de alguém, que já são mães… Como se pode avançar com este tipo de mentalidade, com este tipo de vida? E porque se dão em casamento? Para ver se o homem que casa com a filha pode trazer alguma coisa para a sobrevivência da mãe e dos irmãozinhos”, diz, acrescentando: “É uma fuga à miséria, mas, no fundo, é outra miséria…”.

ARRISCAR A VIDA POR AMOR AO EVANGELHO

O terrorismo está já tão presente no norte de Moçambique que o medo persiste mesmo quando os homens em armas, que juraram fidelidade aos jihadistas, estão ausentes. Prevalece o medo e a miséria. A própria irmã não está imune a isso. Ela também sente algum pavor sempre que tem de atravessar zonas mais inóspitas, sempre que a estrada se transforma em caminhos no meio das matas, onde não há ninguém para pedir socorro. “Eu digo: ‘Meu Deus, oxalá que Deus me guarde’. É o medo. Todo o mundo anda com medo. É a verdade”, diz a superiora da congregação.

Este medo também afecta a vida das irmãs, a vida dos padres, a vida da própria Igreja. E isso dá ainda mais valor à presença de todos, religiosas, sacerdotes, catequistas, seminaristas, nesta zona norte de Moçambique onde a ameaça terrorista está mais acesa. “As pessoas arriscam a própria vida por amor ao Evangelho”, diz a irmã, lembrando o exemplo das religiosas que encontrou em Chiúre, junto dos campos de deslocados. “Elas nunca abandonaram o povo. Desde que começaram os ataques dos terroristas, estas irmãs nunca saíram de Chiúre. É um testemunho heroico, de quem está com o povo no momento bom e no momento difícil. E esse testemunho – acrescenta a Irmã Ermelinda – e também porque estamos em ano jubilar, dá esperança.”

TRABALHAR COM IDOSOS, ÓRFÃOS, VIÚVAS, CRIANÇAS…

A congregação das Irmãs da Imaculada Conceição nasceu oficialmente em 1948, em Lichinga, com o noviciado de oito jovens, cumprindo-se assim o sonho do Padre Oberto Abôndio, um missionário da Consolata. “Ele queria pessoas que o auxiliassem na evangelização, e que o fizessem na própria língua, pois os missionários chegavam lá, aos lugares mais distantes, e mal falavam português, quanto mais as línguas locais…”

Esta congregação, a primeira nascida em Moçambique, tem como carisma “anunciar as infinitas riquezas de Cristo, servo e missionário, aos mais necessitados”. E isso faz-se como? “Concretizamos isso – diz a superiora-geral – trabalhando na educação, na saúde, mas também com os órfãos, com os idosos, com as viúvas e com as mulheres e raparigas desfavorecidas. Mas também trabalhamos na formação de catequistas, de animadores de comunidades, na liturgia, nas paróquias, na animação eucarística e na celebração da palavra, pois os padres não chegam a todas as comunidades”, acrescenta.

Actualmente, a congregação tem 48 religiosas, a que se somam ainda 7 noviças e 12 postulantes. Mas já foram muitas mais. Quando se deu a independência de Moçambique e o país “entrou no marxismo, no socialismo e proclamava a não existência de Deus”, chegaram a ser aproximadamente 80.

Mas esses foram anos de perseguição religiosa. “As igrejas foram fechadas, muitas irmãs foram levadas para a cadeia, outras foram levadas para a vida militar, e muitas saíram.” Eram 80 e ficaram apenas 13. Só em 1981, e por decisão de D. Luiz Gonzaga Ferreira, jesuíta e então Bispo de Lichinga – que decide abrir uma casa em Maputo –, dá-se o que a Irmã Ermelinda classifica como “o segundo nascimento da congregação”.

Hoje, as irmãs estão presentes não só em Lichinga e Maputo, mas também nas Dioceses de Tete, Beira e Inhambane.

MÃES DE VERDADE DE 35 CRIANÇAS ÓRFÃS

O orfanato que as irmãs têm em Lichinga é um sinal desta esperança que a Igreja representa hoje em dia em Moçambique. Por lá vivem 35 crianças. São órfãs. As irmãs transformaram-se nas suas mães de verdade.

No orfanato todos os dias se trava uma luta pela sobrevivência. Os meios são escassos e muitas vezes as crianças são entregues nas mãos das irmãs já em situação muito débil, consequência também da falta de assistência e de hábitos culturais que demoram a ser erradicados.

As mães não têm por hábito frequentar os cuidados de saúde pré-natais. “E quando chegam o dia – explica a irmã –, os partos são feitos em casa, com matronas ou sem matronas.” E, muitas vezes, as coisas correm mal. As mães são levadas em aflição até ao centro de saúde mais próximo, às vezes a uma distância de muitos quilómetros, e vão de bicicleta.

Muitos dos meninos e meninas que estão agora ao cuidado das irmãs ficaram órfãos por causa disto, desta ausência de cuidados básicos, desta negligência que é também rosto da pobreza.

FUGIR DE UM LEÃO COM UMA CRIANÇA NOS BRAÇOS

E as irmãs, muitas vezes, também têm de correr, aflitas, para salvar a vida dos bebés, das crianças que estão ao seu cargo no orfanato. E muitas vezes andam com o credo na boca quando têm de ir apressadas no meio das matas até ao centro de saúde mais próximo levando ao colo a vida de uma criança, de um bebé.

“Muitas vezes eu chorei com a criança ao colo a caminho de Mecanhelas”, diz a Irmã Ermelinda, lembrando o sufoco de ter uma vida tão frágil nos braços. Numa dessas viagens, a irmã apanhou um susto de morte. Ia de mota, como sempre – “já nem sei quantos quilómetros já fiz de mota como superiora” – e levava ao colo uma criança que precisava de ser vista pelo médico. E, de repente, surge um leão que procurava caçar um coelho. “Só que, quando o leão chega à estrada vê a moto a passar e pensa que nós levámos o coelho connosco. E começa a perseguir-nos. Eu disse à irmã para ela acelerar a motorizada. Ela põe velocidade e eu só disse: ‘Meu Deus!, são três pessoas que podem acabar a vida aqui. Duas irmãs e uma criança. Isto está nas Tuas mãos…’ E 10 minutos depois, o leão recuou. Nem sei como é que não nos conseguiu apanhar. Desistiu”, diz a madre superiora, acrescentando que, apesar de tudo, foi uma experiência “horrível, horrível”.

Hoje, quando recorda este episódio, a Irmã Ermelinda sublinha também a enorme perícia e coragem da irmã que conduzia a motorizada. “Tiro-lhe o chapéu. Mas foi Deus que não permitiu que as coisas acontecessem. Nem por valentia da irmã, nem nada. Foi Deus que não quis mesmo que o leão tomasse conta de nós…”

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


The reCAPTCHA verification period has expired. Please reload the page.

Relatório da Liberdade Religiosa

Embora os líderes cristãos e muçulmanos continuem a denunciar a violência e a promover o diálogo inter-religioso, num esforço de deslegitimação do jihadismo, tal será insuficiente se não forem abordadas as desigualdades sociais e económicas subjacentes que afectam os jovens, especialmente nas regiões mais pobres. As perspectivas para a liberdade religiosa continuam a ser desastrosas.

MOÇAMBIQUE

918 125 574

Multibanco

IBAN PT50 0269 0109 0020 0029 1608 8

Papa Francisco

“Convido-vos a todos, juntamente com a Fundação AIS, a fazer, por todo o mundo, uma obra de misericórdia.” 
PAPA FRANCISCO

© 2024 Fundação AIS | Todos os direitos reservados.