LÍBANO: “Vamos ficar apesar da guerra”, garante pároco de aldeia cristã em zona de crescente violência

Desde que começou a escalada do conflito no Médio Oriente, no final de Fevereiro, a fronteira sul do Líbano voltou a ser uma linha da frente de guerra. Neste contexto de violência crescente, o sacerdote maronita Maroun Youssef Ghafari, pároco da aldeia cristã fronteiriça de Alma Sha’b, decidiu permanecer ao lado da sua comunidade, apesar do perigo e do número crescente de mortos e feridos. Ontem, o Papa Leão prestou homenagem ao Padre Pierre, que morreu nesta segunda-feira, vítima de bombardeamentos pelas forças de Israel.

Na passada segunda-feira, dia 9, morreu no sul do Líbano o Padre Pierre El Raï, 50 anos, sacerdote maronita da aldeia cristã de Qlayaa, no distrito de Marjayoun, e que colaborava com a Fundação AIS. Ontem, no final das audiências das quartas-feiras, o Santo Padre prestou-lhe homenagem referindo-se a ele como “um verdadeiro pastor, que permaneceu sempre ao lado do seu povo, com o amor e o sacrifício de Jesus, o bom pastor”.

O Papa recordou, perante milhares de fiéis que se encontravam na Praça de São Pedro, no Vaticano, as circunstâncias em que o Padre Pierre perdeu a vida. “Assim que soube que alguns paroquianos tinham ficado feridos num bombardeamento, correu sem hesitar para os ajudar”, disse o Papa, pedindo as orações de todos pela paz no Irão e em toda a região do Médio Oriente.

Roguemos ao Senhor que o seu sangue derramado seja semente de paz para o amado Líbano. Queridos irmãos e irmãs, continuemos a rezar pela paz no Irão e em todo o Médio Oriente, em particular pelas numerosas vítimas civis, entre as quais muitas crianças inocentes.”

Dias desafiantes para o Líbano

Desde que começou a guerra no Irão, a 28 de Fevereiro, e depois de o Hezbollah ter lançado projécteis contra Israel, o que levou a uma resposta contundente do exército de Telavive contra o Líbano, que este país vive tempos muito duros, muito pesados. Têm sido mesmo dias desafiantes para a coragem dos cristãos, dos padres e das religiosas que vivem neste país.

É o caso do Padre Maroun Ghafari, pároco da aldeia cristã fronteiriça de Alma Sha’b, e que decidiu permanecer ao lado da sua comunidade, apesar do perigo. Este sacerdote já chorou a morte do seu próprio irmão, Sami Ghafari, sexagenário, morto a 8 de Março quando se encontrava em casa, na aldeia onde vivia, e no dia seguinte, recebia também a notícia da morte do Padre Pierre El Raï…

Embora o sul do Líbano seja maioritariamente xiita, existem na região várias aldeias predominantemente cristãs, como Qlayaa, Marjayoun ou Alma Sha’b. Apesar da intensificação dos combates na zona e das ordens de evacuação israelitas, muitos dos seus habitantes optaram por permanecer nas suas terras, casas e igrejas, por temerem, caso partam, que os seus bens possam ser destruídos e os seus campos devastados.

Uma aldeia que já sofreu com a guerra

Alma Sha’b está localizada a dois quilómetros da fronteira com Israel. Antes do recomeço dos combates, cerca de 350 habitantes ainda viviam na aldeia. Hoje, cerca de 100 pessoas — adultos, crianças e idosos — optaram por ficar. À frente da paróquia, o maronita Maroun Youssef Ghafari explica: “Apoiamos os habitantes nesta decisão de ficaremos apesar da guerra”.

O pároco lembra que a aldeia já pagou um pesado tributo neste recorrente conflito no país. “Sofremos a destruição de 90% das casas quando fomos obrigados a partir completamente no final de Setembro de 2024. Estávamos convencidos de que, se partíssemos novamente, por qualquer motivo, não seríamos autorizados a voltar e que o que restasse seria novamente destruído”, disse.

Desde 28 de Fevereiro de 2026, recorda, diversos “projécteis caíram na aldeia ou nos seus arredores, danificando algumas casas, mas ninguém ficou ferido até agora”. Segundo o padre, as outras aldeias cristãs fronteiriças tomaram a mesma decisão. “Tomámos as medidas necessárias junto do núncio apostólico, das autoridades eclesiásticas e locais, bem como da FINUL (Força Interina das Nações Unidas no Líbano), e informámo-los de que desta vez não partiríamos. No entanto, em tempo de guerra, não há garantias”, explica.

Permanecer é também um acto de fé

A morte do seu irmão marcou profundamente a comunidade. Sami Ghafari, de 70 anos, foi morto enquanto se encontrava no seu jardim em Alma Sha’b. Representantes da Fundação AIS tinham visitado esta aldeia durante a trégua entre Israel e o Hezbollah, em Novembro de 2024, antes, portanto, da actual escalada da violência, e celebraram a missa com a comunidade paroquial local. Sami Ghafari estava entre os fiéis presentes nessa eucaristia.

“Perder um cidadão libanês que amava profundamente a sua terra e que não tinha nada a ver com o conflito, e que também era meu irmão, mergulha-nos numa imensa tristeza”, confessa o Padre Ghafari à AIS. “A guerra só deixa para trás destruição, morte e deslocados”. E acrescenta: “Como padre e cristão, considero Sami um mártir. Ele foi assassinado. O Padre Pierre El Raï, padre maronita de Qlayaa, também perdeu a vida ao serviço da sua paróquia. Rezamos para que as suas almas descansem em paz e que a sua memória se torne uma fonte de consolo e força para as nossas comunidades”, diz.

Para o Padre Ghafari, a decisão de permanecer também é um acto de fé. “Confiamos na Providência Divina e na intercessão da Virgem Maria, nossa protectora”, explica, lembrando que os cristãos “não têm nada a ver com a guerra” e permanecem comprometidos com uma cultura de vida, diálogo e paz. “É por isso que rezamos todos os dias por esta intenção nas nossas missas diárias e todos os Domingos.”

Um “muito obrigado” à Fundação AIS

Ao escolher ficar, estes cristãos libaneses mostram que a presença cristã no Médio Oriente não é apenas uma realidade demográfica, mas uma presença viva assumida por homens e mulheres que testemunham a sua fidelidade à sua fé e à sua terra.

O pároco de Alma Sha’b também sublinha a importância do apoio dos cristãos de todo o mundo, através da oração, mas também a nível material. “Se a Igreja universal não cuidar destas comunidades dispersas ao longo da fronteira – distribuídas por cerca de quinze aldeias cristãs que já foram danificadas – elas correm o risco de sofrer o mesmo destino que os cristãos da Terra Santa”, adverte.

Por fim, embora a prioridade continue a ser o restabelecimento da paz, o padre agradece à Fundação AIS pelo seu apoio. “Em nome da paróquia e, sobretudo, dos pobres – os irmãos de Jesus –, gostaria de expressar a nossa profunda gratidão a todos aqueles que nos apoiam, em particular à AIS, que está ao nosso lado através de ajuda material, alimentar e médica”.

Entretanto, devido à deterioração da situação de segurança na zona, a aldeia de Alma Sha’b deverá mesmo vir a ser evacuada…

Christophe Lafontaine e Paulo Aido

Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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