Com a guerra no Líbano a não dar tréguas, a situação humanitária no país agrava-se de dia para dia com já mais de 1 milhão de deslocados internos. As necessidades são muitas, há pessoas a viver nas ruas e muitos destes deslocados estão a ser acolhidos pela Igreja, que abriu as suas portas para os que se encontram em maior necessidade. A Fundação AIS apela à solidariedade de todos os portugueses para com os cristãos libaneses que, neste momento tão difícil são, diz Catarina Bettencourt, “o símbolo mais visível da Igreja que sofre no mundo”.
O Líbano está de novo a enfrentar uma profunda crise humanitária. Os dados mais recentes, indicam que há, ao dia de hoje, 17 de Março, já mais de 1 milhão de deslocados internos. Tudo isto é uma consequência do ataque conjunto lançado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão em 28 de Fevereiro, e a morte do líder deste país, Ali Khamenei.
Esse ataque provocou uma resposta do grupo Hezbollah, sediado no Líbano, e fez ruir o frágil acordo de paz estabelecido em 2024, lançando de novo o país dos cedros na tragédia da guerra. “A situação é pior do que na guerra de 2024”, explica Marielle Boutros, responsável de projectos da Fundação AIS no Líbano. “Os bombardeamentos são mais intensos”, diz, explicando que até à noite tem havido ataques aéreos. “Há deslocados internos por todo o lado. A situação deles é muito difícil”, acrescenta.
Além do enorme número de deslocados internos, a guerra já causou, segundo os últimos dados disponíveis, pelo menos 886 mortos e mais de 2100 feridos. Entre os que perderam a vida, como a Fundação AIS já relatou, conta-se o Padre Pierre El-Raï, um sacerdote maronita da aldeia cristã de Qlayaa, no sul do país, que foi morto por um ataque israelita na segunda-feira, 9 de Março, e Sami Ghafari, de 70 anos, que perdeu a vida num ataque aéreo enquanto regava as plantas no seu jardim em Aalma Sha’b, uma aldeia cristã perto da fronteira.
Estamos cansados, esta guerra ultrapassou-nos por completo. Após seis anos a sobreviver com o mínimo, estamos exaustos. Não há rendimentos, nada. Sempre que pensamos que as coisas estão a melhorar, que estão a voltar ao normal, sempre que temos essa esperança, acontece algo novo que nos leva outra vez à estaca zero. Com esta guerra, o sentimento avassalador é realmente muito mau.”
Marielle Boutros
O drama dos deslocados
A questão dos deslocados internos é dramática. Como a população total do Líbano é de apenas cerca de 6 milhões de habitantes, haver neste momento já mais de 1 milhão de deslocados, isso significa que 1 em cada 6 habitantes teve já de abandonar a sua casa, os seus haveres, tudo o que tinha. Num país onde as dificuldades de sobrevivência no dia a dia eram já enormes, esta nova realidade ganha uma dimensão de tragédia que atinge também fortemente a minoritária, mas mesmo assim considerável, comunidade cristã, apesar de a maioria dos deslocados serem muçulmanos xiitas.
Desde o primeiro momento que as igrejas abriram as suas portas com voluntários cristãos para ajudar todos os que precisam de mais apoio. No entanto, como explica a responsável de projectos da Fundação AIS no Líbano, a capacidade de ajuda da Igreja é baixa pois tem à sua responsabilidade já a gestão de escolas, lares, orfanatos, hospitais… Para Marielle, no entanto, “a Igreja do Líbano é uma rocha”.
Neste momento, a grande urgência está no apoio aos deslocados. A equipa da Fundação AIS no Líbano está empenhada neste esforço colectivo da Igreja libanesa, que nestas horas mais difíceis tem procurado prestar ajuda de emergência aos mais necessitados. E a responsável de projectos da AIS sublinha a importância desta ajuda, nomeadamente ao nível da distribuição de alimentos, medicamentos, água e ‘kits’ de higiene.
“Queremos que as pessoas permaneçam aqui. Se a Igreja não estiver próxima das pessoas, corremos o risco de perder os fiéis para a emigração. É a missão da Igreja que estamos a apoiar”, diz Marielle Boutros. “É importante dar comida e tudo o mais às pessoas, mas o apoio consiste em estar ao lado dos fiéis, com a Igreja a abrir as suas portas, para que todos saibam que a Igreja está aqui para apoiar, para acompanhar, para rezarmos juntos, para vivermos juntos a missão de Cristo. A Igreja é realmente um baluarte para que os cristãos permaneçam neste lugar”, conclui Boutros.
Ajuda de Portugal
A situação no Líbano é muito delicada e está a ser acompanhada com muita preocupação também em Portugal, pelo secretariado nacional da Fundação AIS. “Os relatos que recebemos de padres e irmãs, assim como de parceiros de projecto revelam que se está perante uma crise humanitária de enormes proporções num país já empobrecido, onde as populações já enfrentavam tempos muito duros”, sublinha a directora da AIS em Portugal.
“A guerra, agora, veio colocar em risco um número impressionante de pessoas. Saber-se que um em cada seis libaneses está neste preciso momento a viver como deslocado interno, diz bem da tragédia em que mergulhou o Líbano”, diz Catarina Martins de Bettencourt.
A Fundação AIS está muito preocupada e procura dar resposta aos pedidos de ajuda mais urgentes da Igreja local que tenta socorrer como pode esta multidão de deslocados. Para isso, a AIS está a lançar aqui em Portugal e também a nível internacional uma campanha de ajuda de emergência.”
Catarina Martins de Bettencourt
“É isso que os cristãos libaneses precisam neste momento: de ajuda e com muita urgência. Eles são, agora, o símbolo mais visível da Igreja que sofre no mundo”, conclui Catarina Bettencourt, agradecendo “de coração” toda a solidariedade dos benfeitores portugueses da Ajuda à Igreja que Sofre. Toda a informação sobre esta campanha, SOS Líbano, está disponível no site da instituição, ou através do telefone 217544000.
Paulo Aido, com Nathalie Raffray
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










