Um ataque com drones na quarta-feira, 4 de Março, danificou edifícios pertencentes à Igreja em Ankawa, o distrito de maioria cristã de Erbil, no norte do Iraque, e fez aumentar o medo entre os Cristãos locais sobre o seu futuro, no meio da escalada das tensões no Médio Oriente e muitos estão novamente a pensar em deixar a região.
Entretanto, ontem, dia 10, o Papa aceitou o pedido de renúncia do Cardeal Louis Sako, Patriarca de Bagdad dos Caldeus, ao fim de 13 anos de serviço à Igreja “em circunstâncias extremamente difíceis”, como explicou numa carta divulgada na mesma ocasião.
“Quando a guerra irrompe no Médio Oriente, enfrentamos outra erosão, rápida ou lenta. Ficamos? Os nossos filhos têm futuro?”, questiona o Arcebispo católico caldeu Bashar Warda, de Erbil, numa declaração enviada à Fundação AIS Internacional, comentando o ataque com drones, que ocorreu há precisamente uma semana, na quarta-feira dia 4, e que danificou um bloco de apartamentos pertencente à Arquidiocese Caldeia de Erbil – o Complexo de Apartamentos Beato Michael McGivney – bem como o convento vizinho das Filhas Caldeias de Maria Imaculada.
Felizmente, não foram registadas vítimas. “Tememos as bombas e a incerteza. A nossa esperança em Jesus não se baseia na política, mas na presença fiel de Deus”, acrescentou o Arcebispo Warda.
O complexo de apartamentos tinha sido evacuado alguns dias antes, devido a ameaças de que a base militar americana nas proximidades e o Aeroporto Internacional de Erbil poderiam ser alvos de ataques. Os avisos surgiram após os ataques aéreos dos EUA e de Israel a Teerão, que levaram ao início da guerra na região. O complexo servia de alojamento para jovens casais e estudantes da Universidade Católica de Erbil, que é parcialmente financiada pela Fundação AIS.
Comunidade cristã “profundamente abalada”
John Neill, assessor de longa data e coordenador de projectos do Arcebispo Warda, disse que a comunidade ficou profundamente abalada com o ataque:
Estamos muito preocupados e chocados. A guerra é tão indiscriminada. É um milagre que ninguém pareça ter ficado ferido. Rezamos ao Espírito Santo para que ajude a manter todos em segurança.”
John Neill
Por sua vez, Fadi Issa, representante internacional da Fundação AIS no norte do Iraque, alertou que a situação de segurança no país está a deteriorar-se rapidamente, com milícias apoiadas pelo Irão a lançarem mísseis contra bases militares dos EUA e alguns dos projécteis a atingirem áreas povoadas.
Segundo Issa, o ritmo dos lançamentos de mísseis e drones contra Erbil aumentou nos últimos dias. Alguns foram interceptados por sistemas de defesa aérea, mas outros caíram em Ankawa, incluindo perto de igrejas e edifícios residenciais. O convento vizinho – também apoiado pela Fundação AIS – faz parte de um complexo que inclui um centro de catequese e a Igreja de São Pedro e São Paulo que, em épocas de pico, acolhe até 1000 jovens que aprendem sobre o Cristianismo.
Issa disse que as comunidades cristãs na vizinha planície de Nínive – a terra ancestral dos Cristãos iraquianos – estão cada vez mais ansiosas com a possibilidade de uma nova escalada. “Hoje, as famílias estão a intensificar as suas orações na esperança de que a paz prevaleça e que esta guerra caótica e sem sentido chegue ao fim”, disse. “Esta guerra traz de volta memórias do deslocamento forçado de 2014, e as pessoas podem começar a considerar a migração mais uma vez”, acrescentou.
Renúncia do Cardeal Louis Sako
Entretanto, ontem, dia 10, o Papa Leão XIV aceitou o pedido de renúncia do Cardeal Louis Sako, Patriarca de Bagdad dos Caldeus, que já tinha pensado em renunciar em 2024, quando completou 75 anos de idade, mas foi encorajado, então, a permanecer no cargo pelo Papa Francisco.
Numa carta escrita pelo Cardeal e divulgada também ontem, Louis Sako – que já esteve em Portugal em 2011 a convite do secretariado nacional da Fundação AIS – explica que agora pretende “dedicar-se em silêncio à oração, à escrita e ao serviço simples”, esclarecendo ainda que não foi obrigado por ninguém a apresentar a sua renúncia e que o fez espontaneamente.
Citado pelo portal de notícias do Vaticano, Sako afirma que guiou “a Igreja Caldeia em circunstâncias extremamente difíceis e no meio de grandes desafios”, tendo preservado a unidade das suas instituições, não se poupando a esforços na sua defesa. O purpurado ressalta que defendeu também “os direitos dos iraquianos e cristãos, assumindo posições e mantendo uma presença tanto dentro quanto fora do país”.
A visita a Portugal em 2011
O Cardeal Sako esteve 13 anos ao serviço de Bagdad. Antes foi sacerdote em Mossul e bispo em Kirkuk. Foi precisamente como Arcebispo de Kirkuk que Louis Sako visitou Portugal em Novembro de 2011, a convite da Fundação AIS, para dar testemunho da vida quotidiana no seu país, onde a comunidade cristã, minoritária, era já então perseguida e ostracizada. Louis Sako denunciou, nos vários encontros que manteve no nosso país, nomeadamente junto dos bispos na assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, a agressividade dos fundamentalistas islâmicos contra a minoria cristã.
Três anos mais tarde, em Agosto de 2014, confirmavam-se dolorosamente estas palavras quando o grupo jihadista Estado Islâmico atacou e expulsou os cristãos das terras bíblicas da Planície de Nínive. Actualmente, tal como então, a Fundação AIS continua a apoiar a comunidade cristã iraquiana, nomeadamente patrocinando estudantes da Universidade Católica de Erbil e financiando a catequese e outros programas de educação cristã, incluindo o “Ankawa Youth Meeting”, um acampamento cristão para jovens.
Maria Lozano e Paulo Aido, com John Pontifex
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt










