Apesar de menos sacerdotes presos ou raptados em 2025 em comparação com 2024, esta continua a ser uma realidade preocupante em muitas partes do mundo, de acordo com dados reunidos pela Fundação AIS Internacional.
O número de raptos também diminuiu ligeiramente em comparação com 2024, mas continua a ser um grande problema em algumas regiões de África.
Um total de 28 sacerdotes e religiosos foram presos ou privados de liberdade em todo o mundo, em comparação com 72 no ano anterior.
Para efeitos desta análise, apenas são contabilizadas as detenções consideradas motivadas por perseguição. Os sacerdotes que são presos por motivos credíveis de crimes comuns não são incluídos na lista.
A grande diferença nos números pode ser atribuída à Nicarágua. Enquanto em 2024 um total de 44 clérigos estiveram presos em algum momento durante o ano, a maioria foi libertada e, em 2025, apenas dois permaneceram presos. Um deles é o Padre Frutos Valle Salmerón, que foi colocado em prisão domiciliária em Julho de 2024 e continua privado de liberdade, e o outro, o Padre Pedro Abelardo Méndez Pérez, foi preso em Junho e libertado no início de Julho.
A Bielorrússia também registou uma ligeira diminuição nas detenções de padres católicos. Em 2025, três sacerdotes foram detidos mas, no final do ano, dois foram libertados. O que permanece na prisão é um padre polaco acusado de espionagem. Outro padre, que tinha sido condenado a 11 anos de prisão em 2023, também foi libertado em 2025, após ter sido perdoado pelo presidente da Bielorrússia.
Aumento de casos na China
A China, por outro lado, registou um aumento nos casos de clérigos e religiosos sob alguma forma de prisão, com uma onda de cinco aprisionamentos na Diocese de Wenzhou, entre Março e Junho de 2025, incluindo um sacerdote, duas religiosas e o Bispo Peter Shao Zhumin, que foi preso várias vezes ao longo dos anos e colocado novamente em prisão domiciliária em Março de 2025.
Pode ser difícil obter informações fiáveis sobre a situação da Igreja Católica na China, mas, de acordo com os dados da Fundação AIS, havia 14 sacerdotes e religiosos sob alguma forma de detenção durante o ano de 2025, embora um deles, o Bispo Giulio Jia Zhiguo, tenha falecido de causas naturais a 30 de Outubro e outro, o Bispo Augustine Cui Tai, pareça ter sido libertado depois de o Vaticano ter suprimido a sua diocese e a ter fundido com outra para criar uma nova diocese, com as autoridades chinesas a reconhecê-lo como emérito. Três outros bispos que se acredita estarem actualmente privados de liberdade são Vincent Guo Xijing, de Mindong, Joseph Zhang Weizhu, de Xinxiang, e James Su Zhimin, de Baoding, embora não se saiba ao certo se este último ainda está vivo, já que teria 92 anos em 2025.
Índia, Venezuela e Uganda
Outro país preocupante em termos de detenções de religiosos católicos em 2025 foi a Índia, que tem assistido a um aumento da perseguição anticristã nos últimos anos. Curiosamente, as quatro detenções no país foram todas de religiosas, e todas por acusações falsas de rapto ou tráfico de seres humanos, muitas vezes na sequência de assédio por parte de multidões de nacionalistas hindus radicais. Todas foram posteriormente libertadas.
A Venezuela registou duas detenções de clérigos católicos em 2025. Um deles, o Padre Gregory Schaffer, é um sacerdote dos Estados Unidos que trabalhava no país há duas décadas e foi libertado após uma intervenção da Nunciatura, enquanto o outro, que foi detido em Dezembro, era ninguém menos que o Cardeal Baltazar Porras, antigo Arcebispo de Caracas. Porras estava a tentar deixar o país quando as autoridades do aeroporto o detiveram por várias horas, o ameaçaram, cancelaram o seu passaporte venezuelano e se recusaram a deixá-lo usar o seu passaporte diplomático do Vaticano, antes de o libertarem novamente na área de recolha de bagagem do aeroporto.
No Uganda, houve um caso em que um sacerdote foi preso em Masaka no início de Dezembro por membros das forças armadas, acusado de “actividades subversivas violentas”, permanecendo na prisão. Por fim, numa situação muito diferente, o Padre jesuíta Jorg Ält preferiu cumprir uma pena de 25 dias de prisão a pagar uma multa por participar num protesto ilegal contra as alterações climáticas na Alemanha.
Raptos de sacerdotes na Nigéria…
Embora os raptos de clérigos e religiosos católicos tenham diminuído de 44 em 2024 para 38 em 2025, os números continuam preocupantes e demonstram o perigo de servir a Igreja em muitas regiões do mundo. A Nigéria, o país com mais sacerdotes raptados nos últimos anos, registou um aumento do número total, de 17 para 24. Em ambos os casos, os números incluem três padres raptados há vários anos e que continuam desaparecidos, mas não foram declarados mortos.
Se se contarem apenas os raptos ocorridos num determinado ano, os números são 14 para 2024 e 21 para 2025. Duas das vítimas de rapto em 2025 eram religiosas, que acabaram por ser libertadas, e quatro eram seminaristas, dos quais dois foram libertados e dois foram mortos. Dos 15 sacerdotes raptados em 2025 na Nigéria, um foi assassinado pelos seus raptores e dois, Emmanuel Ezema e Bobbo Paschal, continuavam desaparecidos no final de 2025, embora o Padre Paschal tenha sido libertado em Janeiro de 2026. Todos os outros sacerdotes foram libertados.
…e também nos Camarões
Outro país que registou um aumento acentuado do número de raptos foi os Camarões, com um total de oito em 2025, contra três em 2024. A maioria foi realizada por milícias independentistas da Ambazonia, na Diocese de Bamenda. O Padre Huub Welters, um missionário holandês, foi raptado em Abril e mantido em cativeiro durante três dias antes de ser libertado.
Mais seis sacerdotes, todos camaronenses, foram raptados em incidentes relacionados. A 15 de Novembro, o Padre John Tatah foi raptado juntamente com um colega. Três dias depois, um grupo de quatro outros sacerdotes foi negociar a libertação do Padre John, mas acabaram por ser todos raptados. Esses sacerdotes e o companheiro do Padre John foram libertados a 20 de Novembro, tendo o próprio Padre John recuperado a sua liberdade a 2 de Dezembro.
O outro sacerdote camaronês, Padre Valentin Mbaïbarem, foi levado à força, na Diocese de Garoua, em Maio, e mantido em cativeiro durante uma semana antes de ser libertado em segurança. Garoua está localizada na região norte dos Camarões, perto da região extremo norte, que enfrenta um elevado risco de crimes violentos e ataques do Boko Haram e do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWA).
E ainda na Colômbia, Itália e Etiópia
Dois sacerdotes foram raptados na Colômbia, em 2025. No primeiro caso, o Padre agostiniano Carlos Saúl James foi sequestrado e mantido em cativeiro durante 10 dias por agressores desconhecidos antes de ser libertado. Em Dezembro, o Padre Winston Chávez foi mantido sob a mira de uma arma durante várias horas por um grupo paramilitar rebelde que tomou a sua cidade e foi forçado a ler mensagens pelo sistema de som da igreja. Foi libertado quando os rebeldes se retiraram.
A queda do número total de raptos, em comparação com 2024, deve-se em grande parte ao Haiti, onde apenas um padre, Jean Julien Ladouceur, foi raptado em 2025 e posteriormente libertado. Em 2024, o número de raptos foi de 18. Um sacerdote também foi raptado em Itália, em Junho, no contexto de um assalto. Depois de ser atraído para a casa do seu agressor, sob o pretexto de uma bênção, foi agredido, roubado, forçado a entrar num carro, levado para outro local e depois abandonado no campo.
A Fundação AIS também tem informações de que o Padre Habtewelde Teshome, da Etiópia, foi raptado e assassinado por rebeldes armados, em Março. De todos os religiosos raptados em 2025, apenas o Padre Emmanuel Ezema, da Nigéria, continua desaparecido, já que o Padre Bobbo Paschal foi libertado em Janeiro de 2026.
19 religiosos assassinados
O número de religiosos assassinados em 2025 aumentou em relação aos anos anteriores. Enquanto 13 foram mortos em 2024, em 2025 o total foi de 19. Destes, 15 eram sacerdotes, dois eram seminaristas e duas eram religiosas. Os padres e seminaristas acima mencionados, mortos na Nigéria e na Etiópia após terem sido raptados, quatro no total, estão incluídos entre os mortos devido à perseguição directa ou como resultado do cumprimento do seu dever em situações de grande perigo pessoal.
Noutros casos, o Padre nigeriano Mathew Eyea foi alvejado quando os raptores abriram fogo contra o seu automóvel. Morreu instantaneamente e outros passageiros foram raptados. O Padre Luka Jomo foi morto no contexto da guerra civil, no Sudão, depois de permanecer na cidade sitiada de El Obeid para cuidar dos seus paroquianos. O Padre Donald Martin Ye Naing Win foi morto por militantes armados em Mianmar, outro país onde a Igreja continua a servir em zonas de conflito. Testemunhas dizem que, quando os rebeldes ordenaram que se ajoelhasse, ele recusou, dizendo que só se ajoelhava perante Deus, e então executaram-no.
Nos EUA, o Padre Arul Carasala, nascido na Índia, foi morto a tiro por um homem que, segundo a polícia, o tinha como alvo específico, embora os motivos permaneçam obscuros. No México, o Padre jesuíta Bertoldo Pantaleón Estrada foi assassinado numa região onde a criminalidade dos cartéis de droga é comum. Por fim, duas religiosas também foram assassinadas em 2025, ambas no Haiti. As Irmãs Evanette Onezaire e Jeanne Voltaire foram mortas por gangues armados durante um ataque na cidade de Mirebalais.
Mortos mas não um alvo
Seis dos assassinatos parecem não ter relação com perseguição, incluindo o Padre Pierre Panon, de França, que estava a passear com um amigo quando os dois foram atacados por um homem mentalmente instável que os matou; o Padre Grzegorz Dymek, da Polónia, assassinado na sua reitoria durante uma tentativa de roubo; o Padre Godfrey Oparaekwe, da Nigéria, alvejado enquanto tentava mediar uma disputa entre um casal; o Padre Augustine Amadu, esfaqueado durante um roubo na Serra Leoa; e o Padre Richard Gross, jesuíta americano, morto durante um assalto enquanto estava de férias em Espanha.
Noutros casos, os motivos dos assassinatos ainda estão envoltos em mistério, mas não se pode descartar a perseguição. Por exemplo, no Quénia, dois sacerdotes foram assassinados no período de uma semana. O Padre John Maina Ndegwa foi raptado, espancado e morreu no hospital devido aos ferimentos. Poucos dias depois, o Padre Allois Cheruiyot Bett foi morto a tiro por criminosos quando regressava de celebrar Missa numa comunidade distante. Em ambos os casos, os sacerdotes parecem ter sido alvos específicos.
Não esquecer catequistas e leigos
É importante notar que muitos outros agentes pastorais sofreram e perderam a vida em 2025 em diferentes partes do mundo. Entre eles estão catequistas e missionários leigos que muitas vezes estão na linha de frente, servindo comunidades católicas em lugares como Burquina Fasso, Nigéria, Moçambique e Haiti. No entanto, a lista da Fundação AIS inclui apenas clérigos e religiosos professos.
Filipe D’Avillez e Maria Lozano
Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt







