SÍRIA: “Continuem a rezar pela Síria, que está a viver um momento crucial”, pede irmã portuguesa que vive em Qara

A Irmã Maria Lúcia Ferreira, a única religiosa portuguesa a viver na Síria, volta a pedir as orações de todos por este país do Médio Oriente que está a atravessar um tempo crítico, com violência, ataques terroristas e o alastrar de uma crise humanitária que é cada vez mais grave. Mas, apesar de todas as ameaças, os cristãos continuam firmes na fé, como relata a irmã, dando conta, por exemplo, da festa a Santo Elias, que se celebrou na vila de Rableh, onde se encontra o ícone de Nossa Senhora das Dores, Consoladora dos Sírios, que foi oferecido há anos pela Fundação AIS…

A situação na Síria, desde a queda do regime de Bashar al-Assad, em Dezembro do ano passado, continua complexa, com combates entre diferentes comunidades étnicas e religiosas, que causaram já grande derramamento de sangue. Os cristãos têm sido vítimas também de violência, até de ataques terroristas, como aconteceu recentemente na região de Suwayda, em que uma igreja foi atacada no dia 15 de Julho e as casas de 38 cristãos foram incendiadas, ou em Junho, com o atentado suicida, dia 22, contra a Igreja Ortodoxa de Santo Elias, no bairro cristão de Dweil’a, em plena cidade de Damasco, a capital da Síria, atentado que causou mais de 80 vítimas, entre mortos e feridos.

Neste contexto profundamente complexo e perigoso, a Fundação AIS tem recebido relatos preocupantes de degradação das condições de segurança no país, nomeadamente na região de Suwayda, onde “a vida se tornou insuportável”, como disse recentemente à Fundação AIS Internacional uma religiosa que não pode ser identificada precisamente por questões de segurança. A irmã diz que “há cadáveres espalhados pelas ruas”, e que a situação é de “desumanização para além do imaginável”, e que “não resta dignidade nem para os vivos nem para os mortos”.

“TEM HAVIDO COISAS HORRÍVEIS…”

Também a Irmã Maria Lúcia Ferreira, mais conhecida simplesmente como Irmã Myri e que é a única religiosa portuguesa a viver na Síria, tem relatado o ambiente de violência e caos e medo que tem alastrado neste país do Médio Oriente, especialmente nos meses de Junho e Julho. “Tem havido em Suwayda coisas horríveis”, denunciou a irmã, que pertence à congregação das Monjas de Unidade de Antioquia.

“Houve o caso de uma família inteira, de um pastor protestante que era de origem drusa, e que se tornou cristão. Era protestante, mas isso não interessa, é um cristão que confessa Jesus Cristo… e toda a família, 20 pessoas, foi degolada”, diz a irmã na mais recente mensagem áudio enviada para a Fundação AIS em Lisboa. Uma mensagem em que dá conta também da enorme devoção dos sírios a Santo Elias.

Talvez por causa do atentado à Igreja em Damasco, dedicada a este profeta, a verdade é que este ano foi novamente celebrada, com intensidade, apesar de com menos fiéis, a festa a Santo Elias. Foi no dia 20 de Julho e num dos locais onde essa veneração é mais intensa, o santuário a Santo Elias, situado na vila de Rableh, existe um ícone particularmente venerado e que foi oferecido, há anos, pela Fundação AIS Internacional.

MISSA CELEBRADA NA CAPELA ORIGINAL

A irmã conta que o dia foi de celebração e de festa, mas que, ao contrário do habitual, teve menos gente por causa dos acontecimentos que têm vindo a abalar a Síria. “Normalmente, no santuário de Santo Elias, na vila de Rableh, próxima da fronteira com o Líbano, e próxima da [cidade de] Homs, há uma missa muito festiva, com o bispo local e muita gente. Realmente, é um dia de festa. Mas este ano, por causa das circunstâncias, pelo que tem havido, as pessoas tiveram medo de ir”, explica a religiosa portuguesa.

Houve menos pessoas e talvez por isso, a Missa foi celebrada na capela pequena do santuário, “na capela original”. Menos pessoas, mas não menos fervor religioso. A Missa, celebrada por D. Jean Abdo, Arcebispo de Homs, “foi vivida com bastante intensidade, porque os que participaram são os mais fervorosos na devoção a Santo Elias.”

A irmã relata ainda que, dado o clima de receio que se está a viver, “puseram guardas à volta [do edifício], pessoas que quiseram fazer esse serviço, para ver se não acontecia nada”.

ÍCONE DE NOSSA SENHORA OFERECIDO PELA AIS

Mas além da festa em si, além da devoção a Santo Elias, havia outro motivo para os fiéis terem rumado até à vila de Sableh. É que neste santuário está um ícone de Nossa Senhora das Dores – Consoladora dos Sírios, que foi oferecido pela Fundação AIS Internacional. Um ícone que foi benzido pelo Papa Francisco a 15 de Setembro de 2019 e que depois foi levado em peregrinação, durante três anos, por todas as 34 dioceses católicas e ortodoxas da Síria, antes de ser acolhido no mosteiro de Santo Elias, em Rableh, numa cerimónia que juntou centenas de pessoas e que contou com a presença do então presidente executivo da Fundação AIS Internacional, Thomas Heine-Geldern.

Na mensagem enviada para a AIS, a Irmã Myri fez questão de referir esta história e de sublinhar o empenho da fundação pontifícia no apoio, ao longo dos anos, à sofrida comunidade síria.

É preciso dizer que Fundação AIS tem tido grande solicitude pela Síria, e não só a nível material, mas, sobretudo, ao nível de oração, e isso é, realmente, extremamente necessário neste momento.”

A religiosa portuguesa termina a sua mensagem com um apelo, mais um, à oração de todos pelo fim da violência no país. “Deixo aqui o pedido para continuarem a rezar pela Síria, que está, realmente, a viver um momento muito, muito crucial. Não se sabe o que se vai passar, se isto vai parar, se esta violência se vai generalizar, ou não. É um momento bastante difícil para esta região. Muito obrigada”, conclui a irmã.

APOIO DA AIS À COMUNIDADE DE QARA

Desde o mosteiro de São Tiago Mutilado, onde vive, na vila de Qara, perto da fronteira com o Líbano, a Irmã Maria Lúcia Ferreira tem sido uma observadora privilegiada sobre a situação na Síria desde há anos, ao longo da guerra civil, e agora, desde Dezembro do ano passado, com a queda do regime de Bashar al-Assad e o advento do novo poder, que não tem sido capaz, até agora, de restabelecer a tranquilidade no país.

Nestes últimos anos, a irmã tem partilhado mensagens e testemunhos com a Fundação AIS em Lisboa, alertando sempre para a situação difícil em que vivem as populações, que têm lutando pela própria sobrevivência no dia-a-dia, e apelando sempre às orações de todos. O secretariado português da Fundação AIS tem procurado apoiar as comunidades cristãs que vivem na vila de Qara, onde se situa o mosteiro de São Tiago Mutilado, através da compra de peças de artesanato produzidas localmente por famílias cristãs, e ainda colocando à venda em Portugal, por exemplo, cruzes em gesso pintadas à mão pelas próprias religiosas.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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