Papa Leão XIV falou ontem publicamente, e pela primeira vez, de Cabo Delgado, a região norte de Moçambique que está desde 2017 a ser palco de constantes ataques terroristas. O Santo Padre pediu ao mundo para rezar para que o sofrimento deste povo não seja ignorado nem esquecido. Horas depois, o Bispo de Pemba enviava uma mensagem para a Fundação AIS sublinhando a importância das palavras do Santo Padre e da sua “proximidade” para com estas populações que sofrem “horrivelmente”.
Leão XIV falou ontem, Domingo, dia 24 de Agosto, pela primeira vez de Cabo Delgado, a região norte de Moçambique que tem sido palco, desde Outubro de 2017, de constantes ataques terroristas por parte de grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, a organização jihadista Estado Islâmico. Os ataques têm crescido de intensidade nas últimas semanas, especialmente desde Julho, provocando uma nova onda de deslocados, com milhares de pessoas em fuga face a acções de enorme violência, nomeadamente envolvendo o rapto e decapitação de pessoas e a destruição de casas.
Ontem, após a oração mariana do Angelus, o Papa Leão XIV demonstrou que está a acompanhar de perto esta situação e manifestou a sua proximidade para com a sofrida população que vive na região norte deste país africano de língua portuguesa.
Expresso a minha proximidade com a população de Cabo Delgado, em Moçambique, vítima de uma situação de insegurança e violência que continua a causar mortos e deslocados. (...) Ao apelar para que não esqueçamos estes nossos irmãos e irmãs, convido-vos a rezar por eles e expresso a esperança de que os esforços dos responsáveis do país consigam restabelecer a segurança e a paz naquele território.”
Papa Leão XIV
MENSAGEM DE D. JULIASSE À FUNDAÇÃO AIS
Horas depois de ter proferido esta declaração, o Bispo de Pemba enviava uma mensagem para a Fundação AIS, em Lisboa, a sublinhar a importância das palavras do Papa e a alertar para a situação terrível que se vive em Cabo Delgado, onde a violência jihadista está a recrudescer de forma dramática.
“A mensagem do Santo Padre, Papa Leão XIV, no Ângelus e dirigida ao mundo inteiro, é, em primeiro lugar, um acto da sua maior proximidade para com o povo de Cabo Delgado, que sofre horrivelmente de uma guerra que se iniciou em 2017 e que continua a provocar destruições de vidas, infraestruturas, bens diversos e limita a possibilidade de qualquer desenvolvimento”, disse D. António Juliasse.
O prelado enfatizou que as palavras do Papa são um “convite para que esta guerra não caia no esquecimento”, e são também “um grande incentivo para que os esforços pela paz sejam revigorados e o povo, vítima da guerra, particularmente os deslocados internos e tantos outros que portam traumas, encontrem alguma ajuda a partir da solidariedade do mundo inteiro”.
“Penso que o Santo Padre está a dizer de forma muito simples que não existem guerras dignas do esquecimento, porque toda guerra fere a vida e ultraja a dignidade da pessoa humana”, conclui D. António Juliasse na mensagem enviada para a fundação pontifícia.
MAIS DE 60 MIL DESLOCADOS
De facto, a situação em Cabo Delgado está novamente muito complexa, com uma nova onda de ataques terroristas que já provocaram, e só nas últimas semanas, cerca de 60 mil novos deslocados, pessoas forçadas a fugir e a abandonar as suas casas e tudo o que possuem.
Ainda recentemente, a Fundação AIS dava eco das preocupações da Igreja local face às consequências desastrosas no plano humanitário que se estão a viver. O Padre Kwiriwi Fonseca, da Diocese de Pemba, alertava para um dos aspectos mais cruéis desta insurreição armada no norte de Moçambique: o rapto de crianças pelos terroristas. “Essas crianças devem ser procuradas para serem devolvidas aos seus pais, porque essas crianças merecem sonhar, merecem ter um futuro melhor”, dizia o sacerdote no início de Agosto.
O padre passionista falava mesmo numa tragédia imensa que não pode ser ignorada pelo mundo.
A crise humanitária provocada por esta guerra, que dura já quase oito anos, tende a ser menosprezada, silenciada. O silêncio incomoda-nos numa altura em que milhares e milhares de irmãos de Cabo Delgado, principalmente [na região] de Chiúre, viram os ataques aumentarem a crise, viram as suas casas a ser queimadas, viram os seus filhos a ser raptados, e eles viram-se [na situação] de deslocados de guerra nas várias partes da província, nas várias partes do país, também em Nampula, que é uma província vizinha.”
Padre Kwiriwi Fonseca
MAIS DE 6 MIL MORTOS
Desde que começaram os ataques terroristas em Cabo Delgado, Mocímboa da Praia, em Outubro de 2017, já morreram mais de seis mil pessoas e mais de 1 milhão foram forçadas a fugir, a abandonar as suas casas e tudo o que possuíam.
Moçambique é um país prioritário para a Fundação AIS. Graças à solidariedade dos seus benfeitores e amigos em Portugal e espalhados pelo mundo, a fundação pontifícia tem conseguido levar a Moçambique, mas muito especialmente à Diocese de Pemba, que corresponde à região de Cabo Delgado, diversos projectos de assistência pastoral e de apoio psicossocial às populações vítimas do terrorismo, mas também fornecimento de materiais para a construção de dezenas de casas, centros comunitários e ainda a aquisição de veículos para os missionários que trabalham junto dos centros de reassentamento que abrigam as famílias fugidas da violência.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt