MACAU: Igreja iniciou fase diocesana para beatificação e canonização do Pe. Gaetano Nicosia, “o anjo dos leprosos”

Passou quase meio século a tratar, com a generosidade amorosa de um pai, os doentes de lepra em Macau, na China. Agora, a 17 de Janeiro, e assumindo a excepcionalidade da sua vida, a Igreja iniciou o processo para a beatificação e canonização do Padre Gaetano Nicosia, que morreu em Hong Kong com 102 anos.

São muitos os que enaltecem a fama de bondade e abnegação do “anjo dos leprosos”, como também é conhecido. É o caso do Padre Luís Sequeira. O antigo superior dos jesuítas em Macau recorda, à Fundação AIS, alguns dos momentos em que se cruzou com ele, quando estava a rezar ou então “junto dos mais abandonados da sociedade”…

O dia 17 de Janeiro deste ano ficará para a história pela abertura, em Macau, da fase diocesana para a beatificação e canonização do Servo de Deus, Padre Gaetano Nicosia. A Igreja de Nossa Senhora, em Ka Ho, o lugar onde eram praticamente depositados os doentes de lepra em Macau nas primeiras décadas do século passado, foi o lugar escolhido para essa cerimónia. E provavelmente não haveria outro lugar mais apropriado.

O Padre Nicosia, salesiano, nasceu na Sicília, Itália, em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Cedo desejou ser missionário e quis o destino que fosse enviado para a longínqua China. E foi em 1946 – um ano depois do fim da II Guerra Mundial –, em Macau, então colónia portuguesa, que foi ordenado sacerdote. Ao fim de alguns anos, Gaetano Nicosia abraçou aquela que iria ser a missão da sua vida: cuidar dos doentes com hanseníase e que se encontravam meio esquecidos e abandonados numa zona remota na Ilha de Coloane, o lugar mais afastado da cidade de Macau, território então governado pelos portugueses.

Foram 48 anos ao lado dos leprosos que a sociedade queria esquecer, mas que ele, com enorme generosidade e coragem, abraçou como se fossem seus filhos. Viveu com eles, como eles e para eles.

“Estavam completamente abandonados…”

Num documentário de 2017, da autoria de Ciriaco Offeddu e Angelo Paratico, sobre a vida de Gaetano Nicosia e o trabalho desenvolvido em Macau, o próprio sacerdote recordou o dia em que chegou ao lugarejo de Ka Ho, meio escondido na Ilha de Coloane.

Lembro-me do meu primeiro encontro com os leprosos. Disse-lhes: ‘vim para aqui como um dos vós. Viverei convosco’. Em frente a Macau, havia uma ilha esquecida onde viviam os leprosos. Tinham fugido da China, e o governo de Macau colocou-os — primeiro os homens — na Ilha Verde, e depois em Coloane, onde estavam as mulheres com lepra. Assim, o governo juntou todos – homens e mulheres doentes. Era um verdadeiro caos. Estavam completamente abandonados. Muitas crianças nasceram em condições terríveis.”

A aldeia dos leprosos foi criada no final da II Grande Guerra, aproveitando-se algumas casas abandonadas de antigos mercadores ricos macaenses, que em tempos usaram o lugar como espaço de veraneio. A chegada do Padre Gaetano marcou o início de uma vida nova.

“A minha primeira regra foi: somos homens como os outros. Eles eram considerados a categoria mais baixa da humanidade. De facto, podia-se escrever à entrada: ‘Abandonai a esperança, vós que entrais aqui’. E ninguém saía de lá”, recorda o sacerdote no referido documentário.

“Nem sequer o médico lá entrava, e certamente ninguém se atrevia a assinar as permissões de saída daqueles que estavam completamente curados. Assim, todos morriam ali, e alguns, é difícil dizê-lo, suicidavam-se atirando-se da ravina. Sem esperança, sem sentido. A segunda regra que estabeleci foi: se estou curado, posso partir. A terceira regra foi: devemos viver uma vida normal – celebrando a Missa, cultivando a terra, criando galinhas e animais, elegendo representantes, realizando assembleias, celebrando festas e o Natal, e assim por diante”, acrescentou o sacerdote.

Abertura, dia 17 de Janeiro, do processo de beatificação

E foi assim por diante. Curando os doentes, reabilitando-os plenamente perante a sociedade, arranjando e dignificando também a aldeia, a leprosaria. Foram 48 anos de uma vida entregue na totalidade a estes homens e mulheres que a enfermidade marcava e que eram olhados tantas vezes com repugnância e medo pela sociedade.

Agora, no dia 17 de Janeiro, com a abertura formal da fase diocesana do processo de beatificação e canonização do Padre Gaetano Nicosia, a igreja em Ka Ho encheu-se de amigos e conhecidos, pessoas que conheceram o “anjo dos leprosos” e quiseram testemunhar com a sua presença o apreço pela sua vida.

“A eucaristia foi presidida pelo bispo de Macau, D. Stephen Lee Bun Sang, com a participação de, aproximadamente, 40 sacerdotes na concelebração”, relata a agência de informação dos salesianos. “Também participaram as Filhas de Maria Auxiliadora e diversos integrantes da Família Salesiana, bem como pessoas que conheceram pessoalmente o Padre Gaetano: ex-alunos, antigos pacientes de hanseníase, colaboradores e pessoas que experimentaram a sua proximidade, a sua palavra acolhedora e o seu serviço incansável”, refere a notícia.

“A aldeia de Ka Ho, dos seus amados leprosos…”

Um dos amigos de Gaetano Nicosia foi o Padre Luís Sequeira, antigo Superior dos Jesuítas em Macau, e que vive no território há décadas. Para a Fundação AIS, aceitou recordar alguns “momentos” em que esteve com o padre italiano e que o tocaram particularmente.

“Primeiro ‘momento’: Vejo-o, ao fim do dia, já noite, completamente sozinho, diante do Sacrário, a rezar, em profundo recolhimento e intimidade com Deus. Isto passou-se na Capela de Nossa Senhora das Dores, construída por ele na aldeia de Ka Ho, dos seus muito amados leprosos, longe da cidade das luzes cintilantes, tão cheia de atracções efémeras e enganadoras… Eis a entrega total a Deus e n’Ele encontrar não só o consolo da sua alma ao presenciar tão vividamente a angústia humana, como também a coragem e a imaginação para encontrar soluções.”

Dos vários encontros com o “anjo dos leprosos”, o Padre Luís Sequeira recorda ainda, à Fundação AIS, algumas cenas banais do quotidiano, mas que, agora, olhadas à distância, ganham outro colorido, outra intensidade.

“Segundo ‘momento’: Passa ele, na habitual carrinha, também ela simples e sem enfeites, transportando mantimentos e outras mercadorias para servir aqueles que são os mais abandonados e os mais postos de parte pela sociedade… Ei-lo totalmente dedicado aos outros, principalmente àqueles que nada têm, sobretudo, aqueles que até a dignidade de ‘ser humano’ parece terem perdido. Terceiro momento: O padre Nicosia aparece, sempre delicado, atento e modestamente sorridente, a todo aquele que dele se abeira. Sacerdote e pastor que espontaneamente vive e expressa bondade, paz, alegria e… esperança”, relata o padre Luís Sequeira, um dos mais carismáticos sacerdotes de Macau na mensagem enviada para a Fundação AIS.

O encontro com o Papa Francisco no dia em que fez 100 anos

A história e a fama de bondade do Padre Gaetano Nicosia foi crescendo ao longo dos anos. Primeiro, saindo dos limites da leprosaria, depois estendendo-se a todo o território de Macau, a Hong Kong e ao mundo inteiro. No dia do seu centenário, o Padre Nicosia esteve em Roma e foi recebido durante a Audiência Geral pelo Papa Francisco que o abençoou e, curvando-se diante dele, que estava já numa cadeira de rodas, beijou-lhe as mãos.

Agora, com a abertura formal da fase diocesana do processo de beatificação e canonização, o Padre Gaetano Nicosia passa a estar no centro da Igreja em todo o mundo, mas muito especialmente nesta região onde viveu quase meio século e onde acabou por morrer sempre preocupado em resgatar do sofrimento os “seus amados leprosos”. A sua história permanece viva em Macau e Hong Kong, permanece viva na China continental como exemplo de quem viveu o Evangelho junto dos abandonados e desprezados da sociedade.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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