A comunidade cristã indiana viveu um Natal marcado por diversos incidentes, culminando um ano que, segundo o Vaticano, foi caracterizado por “um alto índice de violências e intimidações”. Neste cenário, ganha importância a proclamação formal pela Igreja, a 14 de Janeiro, de São Lázaro Devasahayam como “padroeiro dos leigos” da Índia.
São Lázaro, filho de um brâmane e que viveu no século XVIII, converteu-se ao cristianismo, rejeitou o sistema de castas e defendeu a dignidade de cada pessoa. Foi morto pelas autoridades do seu tempo como um traidor, mas a Igreja Católica vê nele um santo. O Papa Francisco canonizou-o em 2022.
O Natal de 2025 foi marcado por um clima de tensão e assédio contra cristãos em toda a Índia. Houve relatos de violência, ameaças e perturbações das celebrações religiosas durante o Advento e na semana de Natal em diversos estados do país.
Missas foram interrompidas, grupos extremistas vandalizaram decorações de Natal, procissões foram ameaçadas e até um simples almoço de Natal para crianças com deficiência visual na cidade de Jabalpur foi interrompido. Os extremistas justificaram o incidente alegando que os organizadores estavam a promover conversões forçadas. Além disso, várias mulheres cristãs que distribuíam panfletos usando gorros do Pai Natal também foram ameaçadas e obrigadas a retirar-se.
Há registo ainda de que militantes extremistas destruíram decorações de Natal num espaço comercial na cidade de Raipur. Estes incidentes foram o culminar de um ano caracterizado por “um alto índice de violências e intimidações”, segundo o Vaticano. “Fiéis, sobretudo, em estados como Uttar Pradesh, Chhattisgarh, Madhya Pradesh e Orissa, sofreram ataques, que se intensificaram durante o período de Natal”, afirma o portal de notícias da Santa Sé.
Citando John Dayal, do Fórum Cristão Unido, o Vatican News explica que há uma raiz na causa desta violência. “Discursos de ódio de vários líderes governamentais e grupos extremistas hindus, como o Sangh Parivar, contribuíram para este clima. A propaganda, que rotula os cristãos como ‘estrangeiros na Índia’ incentivou tais ações.” Além disso, John Dayal observa: “As leis, que dificultam a conversão religiosa, em vigor em 12 estados, estão a ser usadas, indevidamente, para justificar a violência, apesar das escassas evidências de conversões forçadas”.
O portal de notícias do Vaticano explica ainda que a maior parte dos discursos de ódio registados ao longo do ano passado ocorreram em estados governados pelo Partido Bharatiya Janata, do actual primeiro-ministro Narendra Modi. Neste contexto, pode ler-se ainda, os dálits, os que estão na base do complexo sistema de castas, também conhecidos como “intocáveis”, e os adivásis, os povos indígenas, tal como as mulheres, “enfrentam obstáculos mais complexos”.
A Índia no Relatório da Fundação AIS
O Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade religiosa no Mundo, publicado em Outubro do ano passado, documenta bem toda esta situação e a Índia surge classificado com um país onde há “perseguição” e que os actos de violência “por motivos religiosos e as restrições legais aumentaram” no período em análise, que vai de 2023 a 2025.
“As leis anticonversão expandiram-se, os ataques de multidões intensificaram-se e as igrejas e os Cristãos enfrentaram uma crescente hostilidade. A retórica nacionalista hindu, especialmente em torno das eleições, alimentou as tensões e a impunidade dos agressores”.
O Relatório publica mesmo um artigo específico – um caso de estudo – sobre a Índia e os principais obstáculos à liberdade religiosa dos cristãos neste país. No artigo, de André Stiefenhofer, pode ler-se que “as leis anticonversão encorajam os nacionalistas hindus radicais a práticas de justiça pelas próprias mãos e a linchamentos, que criam um clima de medo entre as minorias religiosas”.
São Lázaro Devasahayam, “padroeiro dos leigos”
Neste cenário, ganha importância a proclamação formal pela Igreja, a 14 de Janeiro, de São Lázaro Devasahayam como “padroeiro dos leigos” da Índia. São Lázaro, filho de um brâmane e que viveu no século XVIII, converteu-se ao cristianismo, rejeitou o sistema de castas e defendeu a dignidade de cada pessoa. Foi morto pelas autoridades do seu tempo como um traidor, mas a Igreja Católica vê nele um santo. O Papa Francisco canonizou-o em 2022…
A proclamação de São Lázaro Devasahayam foi um momento importante para a Igreja indiana, pois reconhece nele o primeiro santo mártir leigo do país e apresenta-o como “um modelo vivo para milhões de fiéis comuns hoje”, escreveram os bispos. A proclamação formal foi divulgada em 14 de Janeiro deste ano numa celebração eucarística presidida por D. George Antonysamy, arcebispo de Madras-Mylapore, na presença do arcebispo Leopoldo Girelli, núncio apostólico na Índia e no Nepal, além de numerosos bispos, sacerdotes, religiosos e mais de dez mil fiéis.
A assembleia reuniu-se no Monte Devasahayam, na Diocese de Kottar, Tamil Nadu, no dia e local do martírio do Santo, que foi fuzilado por sua fé em 14 de Janeiro de 1752. “São Devasahayam deu um testemunho corajoso de Cristo no meio da perseguição. Rejeitou a divisão de castas e afirmou a dignidade de cada pessoa. Viveu os valores do Evangelho com coragem e integridade”, recordou o núncio, acrescentando que a santidade também é vivenciada “nas famílias e na vida pública”: “A santidade é simples e próxima de todos. Vive-se todos os dias ao ver Jesus nos outros. Os leigos são chamados a santificar a Igreja e o mundo. São Devasahayam é um modelo de fé, coragem e compromisso”, afirmou ainda, citado pelo Vatican News.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt





