FRANÇA: Começou julgamento do homem que matou em 2021 o Padre Olivier Maire e ateou fogo, um ano antes, à Catedral de Nantes

O Padre Olivier Maire foi assassinado em Agosto de 2021 por um homem que ele próprio tinha acolhido na sua casa, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, na região da Vendée, e que se encontrava então sob alçada judicial por ter ateado fogo, um ano antes, à Catedral de Nantes. Segundo a Igreja francesa, o sacerdote, Superior Provincial dos Monfortinos, “foi um mártir da caridade”.

O julgamento do ruandês Emmanuel Abayisenga, confesso autor do crime, começou nesta segunda-feira, dia 19 de Janeiro.

Começou em França o julgamento do autor confesso do assassinato, a 9 de Agosto de 2021, do Superior Provincial dos Monfortinos, o Padre Olivier Maire, de 61 anos. No banco dos réus está Emmanuel Abayisenga, um ruandês que já tinha provocado, em 2020, um incêndio na Catedral de Nantes.

Enquanto aguardava pela conclusão desse julgamento, o ruandês, com problemas psiquiátricos, tinha sido acolhido na comunidade religiosa de que fazia parte o Padre Olivier. A notícia do seu assassinato, que não deixou ninguém indiferente, levou a Igreja francesa a descrever o sacerdote como um exemplo “pelo acolhimento incondicional a todos”. “O Padre Olivier Maire morreu vítima da sua generosidade, foi um mártir da caridade”, escreveu a Diocese de Luçon, de que fazia parte.

O Papa Francisco referiu-se também a este sacerdote, dois dias depois do crime, na audiência das quartas-feiras, quando saudou então os peregrinos de língua francesa que se encontravam no Vaticano.

Com grande dor, soube do homicídio do Padre Olivier Maire. Dirijo minhas condolências à comunidade religiosa dos monfortinos de Saint-Laurent-sur-Sèvre, em Vendée, à sua família e a todos os católicos da França. Asseguro a vocês a minha participação e proximidade espiritual. A todos, minha benção.”

Um crime que abalou a comunidade católica

No julgamento, que teve início esta semana, o Tribunal de Justiça de Vendée, em La Roche-sur-Yon, vai tentar dar resposta à pergunta que mais se ouve neste caso: por que razão Emmanuel Abayisenga matou o Padre Olivier Maire? O que se sabe é que o próprio se apresentou às autoridades confessando o crime.

De acordo com a autópsia, a vítima morreu devido a violentos golpes na cabeça. Desde então, e já passaram quase quatro anos e meio, Abayisenga, 45 anos, está em prisão preventiva, depois de ter sido avaliado por psiquiatras. Nas várias sessões do julgamento que já tiveram lugar, todas as testemunhas têm sido unânimes em descrever o missionário monfortino como um homem pacífico, “que representava a não violência, a busca da paz”, como disse, entre outros, Stéphane, irmão gémeo do sacerdote.

A notícia do assassinato do padre monfortino foi referida no Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa publicado em 2023. No documento refere-se que a França “ficou chocada” ao saber da morte violenta do sacerdote.

“Mesmo na França, outrora considerada um país seguro, o Padre Olivier Maire foi assassinado em 9 de Agosto por um homem que ele hospedava na casa dos missionários em Saint-Laurent-sur-Sèvre, enquanto o suspeito aguardava julgamento por incêndio criminoso na Catedral de Nantes”, refere o documento em que se referem ainda outros incidentes que ocorreram em igrejas entre os anos de 2022 e 2023, o período em análise.

Vários incidentes em Igrejas registados pela AIS

O Relatório da Fundação AIS identifica alguns desses episódios e refere que as estruturas religiosas em França “foram alvo de ataques tão frequentes que, em Fevereiro de 2022, o Ministério do Interior prometeu aumentar o financiamento da segurança das igrejas católicas”.

A iniciativa governamental, pode ler-se no documento, foi a resposta a uma série de incidentes, nomeadamente na catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris (janelas e portas partidas), em Bondy e Romainville, na região de Paris (roubo e profanação do sacrário em ambas), em Vitry-sur-Seine (profanação e roubo), em Poitiers (estátuas de santos destruídas) e em Paray-le-Monial (roubo de relíquias).

O incêndio na Catedral de Nantes, que Abayisenga provocou, ocorreu 15 meses após o devastador incêndio de 2019 na Catedral de Notre-Dame de Paris. Embora os bombeiros tenham conseguido conter as chamas rapidamente, ao fim de apenas cerca de duas horas de intervenção, não foi possível salvar o famoso órgão existente no templo, datado de 1621 e que havia sobrevivido à Revolução Francesa e aos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial…

Padre Jacques Hamel, outro caso que chocou a França

O assassinato do Padre Olivier Maire ocorreu praticamente cinco anos depois de um outro caso que chocou também a França: o brutal homicídio do Padre Jacques Hamel, morto em Rouen, enquanto celebrava a Missa, por dois extremistas que haviam jurado lealdade ao autoproclamado Estado Islâmico.

A memória deste caso continua bem viva entre a comunidade cristã. Sinal disso, ontem, dia 21, o Papa Leão XIV, numa mensagem à Federação dos Meios de Comunicação Católicos de França, pelo seu Encontro Internacional São Francisco de Sales, que está a decorrer em Lourdes, destacou, a propósito da edição deste ano do Prémio Internacional de jornalismo que tem o nome do Padre Jacques Hamel, que este idoso sacerdote é uma fonte de inspiração, por ter sido “uma testemunha da fé até à morte”.

O Padre Jacques Hamel, disse o Santo Padre, “acreditou sempre no valor do diálogo e da escuta paciente e recíproca. O Padre Hamel estava convicto da necessidade urgente de estarmos próximos uns dos outros, sem excepção. Para nos conhecermos, precisamos de nos encontrar sem nos deixarmos intimidar pelas diferenças, prontos para sermos desafiados por quem somos e naquilo em que acreditamos”, disse o Papa Leão.

O padre francês Jacques Hamel, octogenário, cuja história de fidelidade na fé até ao martírio tem sido também destacada pela Fundação AIS, foi assassinado, recorde-se, a 26 de Julho de 2016, durante a celebração da Missa, na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, próximo de Rouen, no norte de França, por fundamentalistas islâmicos, que foram abatidos pelas forças da policia. “Que o seu exemplo vos incentive a serem buscadores da verdade no amor que tudo explica, artífices de uma palavra que acolhe, de uma comunicação capaz de reunir o que está quebrado, um bálsamo para as feridas da humanidade”, concluiu o Santo Padre.

Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt

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