A Igreja de Nova Oeiras, no Patriarcado de Lisboa, acolhe até 9 de Abril uma exposição sobre os “Kakure Kirishitan”, os Cristãos Ocultos do Japão, cuja coragem e fidelidade permitiu que a fé permanecesse viva, embora na clandestinidade, durante mais de dois séculos. Para o Padre Nuno Westwood, em cuja paróquia se pode ver a exposição, a história do cristianismo na Terra do Sol Nascente evoca o sofrimento de milhões de fiéis nos dias de hoje em muitos países do mundo e ajuda a perceber a importância da missão da Fundação AIS.
Os portugueses chegaram ao Japão em 1543 e seis anos mais tarde os japoneses descobririam o cristianismo, quando os primeiros jesuítas aportaram a terras do Sol Nascente.
Começava assim uma história que teve momentos terríveis quando em 1614 a religião cristã foi banida, os missionários expulsos e os fiéis forçados a terem de escolher entre o martírio ou a vivência clandestina da fé. Foi nesse ambiente de perseguição que nasceram os “Kakure Kirishitan”, os Cristãos Ocultos do Japão, cuja coragem e fidelidade permitiu que a fé permanecesse viva durante mais de dois séculos.
A evocação desses anos de violência e bravura está patente até ao próximo dia 9 de Abril numa exposição na Igreja de Nova Oeiras. Uma exposição que, diz o pároco, Nuno Westwood, é mais do que uma viagem ao passado, é, acima de tudo, uma interpelação aos Cristãos de hoje: “Somos desafiados a questionar: o que sustenta a fé quando tudo nos é tirado? Como se transmite a esperança quando a luz parece extinta?”
Os cristãos japoneses viveram a sua fé de forma oculta disfarçando imagens, rezando orações que iam sendo sussurradas durante gerações, celebrando inclusivamente os baptismos mesmo sem sacerdotes. Esta história incrível de fidelidade, diz ainda o Padre Westwood, “lembra-nos que a fé não depende apenas de estruturas visíveis, mas da comunhão interior com Cristo, que permanece vivo mesmo no exílio do coração”.
Foi assim no Japão, mas infelizmente continua a ser assim em muitos países do mundo onde milhões de fiéis testemunham uma coragem e fidelidade que só se compreendem à luz de uma fé muito profunda. “No Médio Oriente, na África, na Ásia, há comunidades inteiras que sofrem discriminação, violência e morte apenas por professarem a sua fé. Muitos deles, como os ‘Kirishitan’, são forçados à clandestinidade, privados dos sacramentos e dos espaços de culto”, afirma o sacerdote à Fundação AIS.
REDESCROBRIR O ESSENCIAL DA FÉ
Esta exposição, que já esteve patente ao público no final do ano passado na Universidade Católica, em Lisboa, é apresentada agora no contexto do ano jubilar e procura ser um convite para sermos todos peregrinos de esperança.
“Tal como os ‘Kirishitan’ perseveraram na fé sem sinais exteriores de segurança, também nós, neste tempo jubilar, somos chamados a aprofundar a nossa confiança em Deus e a redescobrir o essencial do nosso caminho cristão. O Papa Francisco convida-nos a entrar no Jubileu com esperança renovada, e os ‘Kirishitan’ ensinam-nos precisamente isso: como manter viva a esperança quando tudo parece perdido. Eles não cederam ao desespero, mas encontraram, na fidelidade a Cristo, a força para resistir. O seu testemunho inspira-nos a enfrentar os desafios da nossa fé hoje, com coragem e fidelidade”, diz o Padre Nuno Westwood.
O filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, evoca essa memória de perseguição religiosa no Japão que permanece, apesar de tudo, relativamente desconhecida no Ocidente.
“O PAPEL FUNDAMENTAL” DA FUNDAÇÃO AIS
A exposição sobre os Cristãos Ocultos do Japão ajuda a compreender o sacrifício e o medo de tantas pessoas nos dias de hoje que são também vítimas de perseguição religiosa, mas mostra igualmente que mesmo nas situações mais difíceis é sempre possível a solidariedade, é sempre possível a esperança. E isso, diz ainda o padre de Nova Oeiras, leva a olhar para o trabalho e a missão da Fundação AIS e a compreender melhor a sua importância.
“Esta exposição pretende também ajudar-nos a elevar o nosso olhar para os nossos irmãos perseguidos de hoje com a urgência da caridade e da solidariedade. É neste contexto que a Fundação AIS desempenha um papel fundamental. Através de projectos de apoio a comunidades perseguidas, esta Fundação não só garante ajuda material e pastoral, mas também dá voz a quem, de outra forma, seria silenciado. Constrói igrejas, forma sacerdotes, oferece apoio às vítimas da perseguição religiosa e leva a esperança a locais onde o nome de Cristo é um risco de vida”, diz o sacerdote.
“Se repararmos bem, a mesma pergunta que, simultaneamente, comporta o convite para ‘caminhar juntos na esperança’, perpassa em cada uma das imagens desta exposição. Como responder ao apelo desafiante da missão em movimento? No século XVI, sabemos como São Francisco Xavier o fez. E nós, como vamos proceder?”, conclui o Padre Nuno Westwood.
Paulo Aido | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt