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Voz da Verdade

NIGÉRIA: Sangue de mártires

3 outubro 2020
NIGÉRIA: Sangue de mártires
NIGÉRIA: Padre descreve violência extrema contra comunidades cristãs

Sangue de mártires

Os cristãos no norte da Nigéria sentem-se abandonados à sua sorte. Vítimas de grupos armados – desde os jihadistas do Boko Haram que matam sem escrúpulos, aos pastores fulani e aos bandidos comuns –, não estão a salvo em lugar nenhum. As autoridades não os defendem e o medo passou a fazer parte do dia-a-dia. O Padre Sam Ebute descreve-nos um ambiente de violência mas também de coragem e de fé. “O sangue destes mártires não será em vão”, diz este sacerdote à Fundação AIS.

“Em menos de duas horas, os bandidos deixaram 17 jovens mortos, enquanto outros quatro acabariam por falecer a caminho do hospital ou já mesmo no hospital.” Foi assim no dia 21 de Julho, na aldeia de Kukum Daji. O Padre Sam Ebute, da Sociedade de Missões Africanas, conta a história deste massacre com as palavras já anestesiadas pela rotina da violência e da morte. “Aconteceu por volta das 23:20, em Kukum Daji, que fica a cerca de dez minutos de carro de Karogo. Havia um encontro de jovens quando, de repente, se começaram a ouvir tiros e homens aos gritos. Para os jovens, aquele era um cenário já familiar…” Vinte e um jovens perderam a vida naquela segunda-feira. Cerca de três dezenas ficaram feridos. Uns com mais gravidade do que outros. Todos, porém, dificilmente irão esquecer os tiros, os gritos, o sangue, os corpos no chão já sem vida, cravejados de balas.


“Consolo-me que Deus está a ver tudo. O sangue destes mártires não será em vão”, diz o Padre Sam Ebute.

Violência descontrolada

O Padre Ebute diz que o massacre em Kukum Daji foi apenas um episódio na violência descontrolada de grupos armados na região norte da Nigéria. Várias aldeias e vilas já experimentaram o sabor amargo do terror, da impotência face aos militantes do mal, como se as pessoas estivessem abandonadas à sua sorte. O Boko Haram, o grupo jihadista, é um dos principais responsáveis por esta onda de terror. Segundo as Nações Unidas, ao longo dos últimos dez anos, mais de 36 mil pessoas foram já assassinadas e mais de dois milhões tiveram de fugir, abandonando tudo o que tinham. São deslocados. São pessoas sem nada.

Famílias enlutadas
O Padre Sam Ebute, responsável pela promoção de vocações na diocese de Kafanchan, lembra, como num lamento, as vezes que já teve de enterrar os seus paroquianos vítimas da barbárie. Foi ordenado sacerdote em 2016. No ano seguinte, começou esse longo rosário de famílias enlutadas por criminosos e terroristas. “Há quatro anos enterro regularmente os fiéis de minha paróquia. Em 2017, tive que enterrar uma mulher que fora assassinada à noite, juntamente com os seus quatro filhos, em Táchira. Em 2018, na Paróquia de Tsonje, foram mais quatro pessoas, e em 2019, em Zunruk, outros sete jovens foram mortos em plena luz do dia enquanto jogavam à bola.”

Testemunhas do horror
São aldeias e vilas, às vezes pequenos lugares apenas com meia dúzia de casas. Há sempre alguém, alguma família, que já testemunhou pelo menos um ataque. O terror é geral. Ninguém se sente tranquilo em sítio algum. “Os últimos ataques deixaram-nos a todos com medo. Sobretudo, com medo do desconhecido, porque não sabemos quando ocorrerão os próximos ataques ou o que os causará…” Um medo que paralisa, que limita movimentos, que coloca uma comunidade inteira quase em prisão domiciliária. “Os nossos movimentos são limitados”, descreve o sacerdote. “Os nossos fiéis não podem realizar as suas actividades livremente. E depois, esta é a época das colheitas, mas agora ninguém se atreve a ir para os campos. Todos têm medo de serem atacados. Por causa disso, as colheiras estão a definhar…”

“Há quatro anos enterro regularmente os fiéis de minha paróquia. Em 2017, tive que enterrar uma mulher que fora assassinada à noite, juntamente com os seus quatro filhos, em Táchira."


Sentimento de orfandade
Os ataques têm visado as comunidades cristãs como se fossem um alvo. Como se as suas casas estivessem marcadas, como se os cristãos tivessem de ser abatidos, um por um. Agora, com os campos a serem abandonados também, sobra uma espécie de sentimento de orfandade. O mundo está a desabar. “É como se tivéssemos morrido por causa da nossa fé!” Não é fácil ser sacerdote de uma comunidade sitiada, ameaçada. O Padre Sam Ebute tenta fazer das fraquezas força para alimentar o seu povo com a esperança em tempos com menos violência e morte. “Tento estar disponível para todos eles, confortando-os, rezando com eles e encorajando-os a manterem a fé em Deus e em permanecerem firmes. Procuro dar apoio espiritual, moral e material o melhor que posso.”

A fé tudo vitamina
Se a Igreja está presente, se o padre é um dos elementos da comunidade, o mesmo não se pode dizer das forças de segurança, do exército, da polícia, das autoridades. “O povo sente-se abandonado na sua dor”, diz o padre como num lamento. “O que torna tudo isto ainda mais difícil é o facto de o governo não tomar as medidas necessárias para conter a ameaça. Isso é o mais frustrante que se pode imaginar.” As aldeias e vilas cristãs no norte da Nigéria têm vindo a ser assoladas por ataques de homens armados que pertencem ao Boko Haram, um dos mais terríveis grupos terroristas da actualidade. Porém, além destes jihadistas, há também grupos de pastores muçulmanos, os fulani, que têm vindo a transformar-se numa ameaça muito concreta, e há ainda bandidos comuns, assaltantes, pessoas que matam sem escrúpulos. Ser sacerdote num ambiente assim é difícil, explica o Padre Sam Ebute à Fundação AIS. “É difícil pregar o perdão, a reconciliação, a paz e o amor às pessoas cujos meios de subsistência foram roubados, que vêm a sua riqueza ser destruída por causa destes ataques…” É difícil mas não é impossível. A fé é a vitamina que alimenta os dias deste padre habituado a sepultar os seus paroquianos vítimas do terror à solta na Nigéria. “Consolo-me que Deus está a ver tudo. O sangue destes mártires não será em vão…”


texto por Paulo Aido,
Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
(Voz da Verdade 04.10.2020)

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