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Voz da Verdade

MOÇAMBIQUE: O herói de Palma

27 junho 2021
MOÇAMBIQUE: O herói de Palma
Catequista arrisca a vida para salvar livros que são “tesouro” da paróquia

O herói de Palma

Durante o mais recente e mais ousado ataque dos terroristas em Cabo Delgado, Moçambique, um humilde catequista arriscou a vida para salvar os livros de registo da Paróquia de Palma. Durante alguns dias, com a vila ocupada pelos jihadistas, escutando-se tiros e explosões por todo o lado, Agostinho Matica ficou escondido junto à igreja para proteger o “tesouro” da comunidade cristã. Faltavam 11 dias para a Páscoa quando tudo começou…

“Sou animador da Paróquia de São Bento de Palma.” Num português difícil, o catequista Paulo Agostinho Matica apresenta-se. Foi no dia 4 de Junho. Momentos antes, entregara nas mãos de D. António Juliasse, Administrador Apostólico de Pemba, os livros de registo da Paróquia de Palma, que escondeu e guardou como um verdadeiro tesouro quando a vila foi atacada por terroristas a 24 de Março. “No dia dos ataques estava na paróquia, a trabalhar…” O relato continua com um vocabulário insuficiente para descrever tudo o que aconteceu. “Eu estava lá dentro, na casa dos padres… seriam 14 horas. O Al Shabaab chega e ataca a Paróquia de Palma.” Agostinho Matica não tem dúvidas sobre isso. Seriam 14 horas quando os primeiros terroristas se aproximam da igreja.

Salvar a memória da paróquia
Desde esse momento, quando se escutaram os primeiros tiros, as primeiras detonações de bombas, que este discreto catequista e animador paroquial assumiu como objectivo principal salvar os “livros de assento”, onde estão os registos de casamentos e de baptizados da paróquia. No fundo, assumiu a urgência de salvar os documentos com a memória histórica da comunidade católica de Palma. Durante dois dias, com a vila ocupada pelos terroristas, com as populações em fuga, escutando-se por todo o lado disparos e explosões, Paulo manteve-se escondido na casa paroquial. Ao terceiro dia decide arriscar e vai até à casa de um amigo, Paulo Tukazaliwa. Dali parte para Quitunda, uma pequena aldeia nos arredores da vila de Palma e que surgiu recentemente ligada ao mega-projecto da exploração de gás. 

“Nós queremos rezar!”
De Quitunda, o catequista seguiu para a vila de Senga levando sempre consigo os livros que considera “o tesouro” da paróquia. Chegou lá na véspera do Domingo de Ramos. Toda a região é cenário de guerra. Os terroristas, que reclamam pertencer ao Daesh, o Estado Islâmico, estão a realizar um dos mais audaciosos ataques na província de Cabo Delgado. Circulam relatos de que em Palma há pessoas assassinadas, decapitadas, centenas de pessoas em fuga, tudo num cenário de caos e de medo. Quando chega a Senga, o catequista encontra uma pequena comunidade cristã. Foi até comovente o que aconteceu. No meio daquele ambiente de guerra, com as pessoas sem saber muito bem o que fazer, para onde fugir, alguns cristãos ao descobrirem ali um responsável da Igreja, um animador paroquial, fazem-lhe um pedido irrecusável. “Eles disseram-me: ‘Nós queremos rezar’. Então, fui à igreja e rezámos.” Na ausência de um sacerdote, é comum haver por ali, em Cabo Delgado, a Celebração da Palavra.



O regresso a Palma
Foi assim que os Cristãos de Senga viveram o Domingo de Ramos. Mas, para Paulo Matica, era preciso ainda encontrar um local onde se pudesse abrigar com mais segurança, onde não arriscasse perder os preciosos livros paroquiais. Para isso, foi até Mwagaza, outra aldeia nas redondezas e onde tem alguns familiares. “Fiquei lá até ao dia 11 de Abril.” Tendo recebido informações de que o ataque tinha terminado, Matica decide regressar, apesar de todos os riscos. Não sabia o que ia encontrar, não sabia quem ia encontrar pelo caminho. “Regressei à paróquia para ver como aquilo estava…” O que encontrou deixou-o emocionado. E profundamente triste. A igreja tinha sido saqueada, havia sinais de destruição em todo o lado. A porta estava partida. Os terroristas tinham queimado imensas coisas, as imagens, alguns bancos, as colunas de som e até janelas. Umas janelas que aguardavam a um canto o momento em que iriam substituir as do edifício da igreja, já muito estragadas… Tudo destruído. Paulo Matica guardava na casa sacerdotal cerca de 30 mil meticais [cerca de 400 euros] para as despesas da paróquia. Tudo tinha desaparecido. “Levaram o dinheiro, um plasma [televisão] e até a motorizada…"

Elogio de D. Juliasse
Dois meses e onze dias depois de o ataque terrorista a Palma, o catequista Paulo Matica foi a Pemba para entregar os livros da paróquia numa breve cerimónia testemunhada pela Fundação AIS. D. Juliasse, Administrador Apostólico da Diocese, elogiou a sua coragem e determinação e disse que ele deu um grande exemplo. “Já sabia da dedicação deste nosso animador para com a paróquia de São Bento de Palma, mas não deixa de ser uma surpresa muito agradável e até de muita admiração pelo facto de ele se ter preocupado em salvar os livros dos registos da paróquia.” O Bispo destacou a coragem de quem menosprezou a própria vida para salvar estes livros “num momento difícil, de ataques, de disparos, de mortes e de fugas”. E falou num testemunho de amor para com a Igreja. “No meio do sofrimento há também este testemunho de amor para com a Igreja de Deus, uma Igreja que [o catequista Paulo Matica] ama e cuida.” A coragem de Paulo Agostinho Matica permitiu salvar os livros de registo da Paróquia de São Bento de Palma. Na verdade, são mais do que simples livros: naquelas páginas escritas à mão estão as memórias da comunidade cristã, os nomes dos que se casaram naquela igreja e ali também se baptizaram, se crismaram. Está tudo ali. Se não fosse a coragem deste homem, os livros da paróquia teriam servido para alimentar a fogueira de ódio que os terroristas acenderam no chão da igreja...
texto por Paulo Aido,
Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
(Voz da Verdade 27.06.2021)

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