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Voz da Verdade

LÍBANO: O milagre da Irmã Justine

26 setembro 2020
LÍBANO: O milagre da Irmã Justine
Líbano: Igreja é sinal de esperança, apesar do sofrimento e fome

O milagre da Irmã Justine

O Líbano enfrenta uma profunda crise económica. O sistema bancário está falido e as famílias desesperam. Fome e miséria passaram a fazer parte da vida dos libaneses. Agora, quase só há pobres e miseráveis. Esta situação agravou-se ainda mais com a brutal explosão no porto de Beirute, a 4 de Agosto. Num instante, milhares de pessoas passaram a ficar sem abrigo...

Pedir comida ou esgravatar restos nos cai-xotes do lixo passou a ser uma imagem comum no quotidiano das grandes cida-des libanesas. A crise neste país do Mé-dio Oriente agudizou-se ainda mais com a brutal explosão, dia 4 de Agosto, que destruiu o porto de Beirute. Um sopro de vento arrasou prédios, ruas inteiras. O bair-ro cristão de Achrafieh foi dos mais atin-gidos. Quase 200 pessoas perderam a vida na explosão de uma quantidade apreciável de nitrato de amónio que estava armazena-do na região portuária. Além dos mortos e de mais de 6500 feridos, ficou um rasto de destruição quase inimaginável. Parecia um cenário de guerra, uma cidade após intenso bombardeamento. Calcula-se que mais de 90 mil habitações tenham ficado total ou parcialmente destruídas, assim como mais de uma centena de igrejas, capelas, conven-tos e escolas. A explosão deixou mais de 300 mil pessoas desalojadas.


A Fundação AIS lançou uma campanha de ajuda de emergência para a distribuição de alimentos a mais de 5800 famílias afectadas pela explosão.

Gritos de protesto

A Irmã Marie Justine já tem os olhos habi-tuados a decifrar o desalento ou a vergonha no rosto dos que lhe batem à porta no dis-pensário que as Franciscanas Missionárias de Maria fundaram em Beirute em 1968. No bairro de Nabaa já ninguém estranha o movimento, cada vez maior, de pessoas em busca de uma refeição quente. Muitos são idosos e vivem sozinhos. Ali, além da comida, resgatam também sorrisos, afectos, um pouco de conversa. Cumplicidades que devolvem alguma esperança. Todos os dias, forma-se uma fila de pessoas junto à por-ta do dispensário. É um bairro pobre que se confunde cada vez mais com a própria cidade. Em todo o lado há vestígios da cri-se. Lojas entaipadas, vidros quebrados, pa-redes escritas com gritos de protesto. Em todo o lado há sinais de uma crise que pare-ce ter engolido todo o país. Ali, no bairro de Nabaa, já há muito que ninguém estranha ver tanta miséria.

Devolver a dignidade
“Chegámos a uma situação em que a clas-se média empobreceu e os pobres ficaram ainda mais pobres”, diz a Irmã Marie Jus-tine Osta, que pertence à congregação das Irmãs Maronitas da Sagrada família. Ela é a directora do dispensário. “Isto”, diz, re-ferindo-se ao estado actual em que se en-contra o Líbano, “é um desastre”. Tem 72 anos mas parece cheia de uma vitalidade quase juvenil. Ela é a alma daquele recanto de solidariedade do bairro pobre da cidade de Beirute. Ali, no dispensário, não ser-vem apenas comida. Dão importância a cada uma das pessoas que lhes batem à porta. São pessoas que ficaram sem di-nheiro, pessoas que já não conseguem sobreviver sozinhas. Ali, junto das irmãs, readquirem a dignidade que julgavam ter perdido. Ali, junto das irmãs, voltam a ser pessoas, voltam a receber sorrisos, voltam a ter alguém com quem falar, com quem desabafar. “É realmente muito doloroso, para mim, ver pessoas pedindo as coisas básicas a quem têm direito, como a comi-da. Eles sentem que perderam a dignida-de. Dói-me ver isso.”

O desespero de uma mãe
A esperança é sempre a última a morrer. Ali, no dispensário do bairro Nabaa, apoia-do pela Fundação AIS, são distribuídas, todos os dias, 1200 refeições. Em 2017, há apenas apenas três anos, eram só 250. As refeições quentes do dispensário das irmãs são o barómetro exacto da dimensão da tragédia que se vive no Líbano. Maguy tem quatro filhos. O mais novo tem 7 anos, o mais velho vai fazer 17. Desde há algumas semanas que ela passou a ir todos os dias ao dispensário. É a única forma de poder alimentar os seus filhos. “Isto é algo que eu pensei que nunca faria”, diz-nos, ainda com uma sombra de vergonha no rosto, des-viando o olhar. “Mas cheguei ao ponto de não conseguir ver os meus filhos a morrer de fome. Por eles, farei tudo...” Maguy é apenas um exemplo dos libaneses que per-deram tudo. Trabalho, dinheiro, tudo. O colapso da economia varreu o país como um ciclone devastador. Famílias da classe média ficaram de mãos vazias no espaço de poucos meses. A pobreza democratizou o país. “As irmãs, aqui, fazem-me sentir mui-to bem-vinda”, diz Maguy enquanto espe-ra pela sua vez para levar comida para casa para os seus quatro filhos. “Deus vos aben-çoe por tudo o que estão a fazer...”

A Irmã Marie Justine está a supervisionar a distribuição da ajuda de emergência.

Futuro negro
O futuro está ensombrado. A continuar as-sim, serão necessários muitos dispensários para alimentar todos os libaneses que en-tretanto vão caindo nas malhas da pobreza. “Vivemos o dia-a-dia. Não sabemos o que vai acontecer amanhã”, diz a Irmã Justine. “Não conseguimos ver a luz ao fundo do túnel.” Nada, porém, que abale a fé da irmã num tempo melhor. “A minha força vem apenas de Deus. A nossa missão é apoiar as pessoas, elevá-las, dar-lhes força e espe-rança, dizer-lhes que Deus está connosco e que dias melhores virão...” A dimensão da crise é assustadora e tudo se agravou com a brutal explosão de 4 de Agosto no Porto de Beirute que afectou principalmente o bair-ro cristão de Achrafieh. A Irmã Justine não poupa nas palavras. “Estamos a aproximar--nos da fome, os produtos estão a ficar cada vez mais caros, as pessoas não terão dinheiro para conseguirem comprar seja o que for no supermercado. Precisamos de um milagre...”


texto por Paulo Aido,
Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
(Voz da Verdade 27.09.2020)

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