Fundação de Ajuda à Igreja que Sofre - Fundação AIS
Rua Professor Orlando Ribeiro, 5D 1600-076 Lisboa, Portugal
(+351) 217544000 apoio@fundacao-ais.pt Fundação AIS 1995
Lisboa
https://fundacao-ais.pt/uploads/seo/big_1585926010_1526_logo-jpg
15 10
505152304

Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Outubro de 2022

1 outubro 2022
Sementes de Esperança: Outubro de 2022
FILIPINAS:
O REGRESSO DE MARCOS



Superfície
300.000 km2

População
109,7 milhões

Religião
Cristãos: 90,8%
Muçulmanos: 5,4%
Religiões tradicionais: 2,3%
Outras: 1,5%

Língua
Tagalo


Depois da presidência de Rodrigo Duterte, os Filipinos elegeram democraticamente o filho de Ferdinand Marcos, de quem não rejeitam a herança política. Uma perspectiva sombria para a Igreja Filipina, que participou na queda do ditador.


“Eu amo a época das eleições! Há festa a toda a hora e hoje ganhei 1000 pesos”, anuncia uma mãe de família de um bairro pobre de Manila. Ganhou este dinheiro assistindo a vários comícios eleitorais. Distribuem-se bilhetes como se fossem rebuçados, a fim de assegurar que enchem os espaços. Um dos candidatos arranjou mesmo uma “pistola de bilhetes” e começou a bombardear a assistência.

Um padre, a arrancar cartazes eleitorais colados na fachada da sua casa paroquial em Manila, não partilha da euforia popular. Ele não pode divulgar a sua identidade, para poder dar a sua opinião: “É uma festa. Os Filipinos divertem-se, mas não se deixam enganar, não acreditam que estas eleições possam mudar minimamente a sua situação.” Tal como a maioria do clero católico do arquipélago, vê com inquietação a vitória de Ferdinand Marcos filho, também conhecido por Bongbong, eleito no passado dia 9 de Maio. Arrecadou mais de 58% dos votos, enquanto a sua principal adversária, Leni Robredo, vice-presidente cessante das Filipinas, ganhou apenas 31%.

O clero filipino recorda-se da hostilidade que Ferdinand Marcos lhe devotou durante os 20 anos que passou no poder, de 1965 a 1986. Falso herói de guerra e autêntico ditador, elevou a cleptocracia ao estatuto de arte ao desviar um montante entre os 5 e os 10 biliões de dólares através da Comissão Presidencial de Boa Governação. Um recorde mundial! Instaurou a lei marcial de 1972 a 1981. Durante esse tempo, milhares de opositores desapareceram e o salário médio caiu 20%. O crescimento económico extraordinário das Filipinas, que a fazia figurar entre os “dragões da Ásia”, caiu brutalmente. Por fim, a morte do opositor Benigno Aquino Junior acabou com a popularidade de Marcos, em 1983. Num país arruinado, desprovido de eleições credíveis, muitos dos que estavam próximo do poder de Marcos revoltaram-se, não suportando mais o autoritarismo de um presidente velho e doente. Correram um grande risco, no que diz respeito aos métodos do presidente, mas foram salvos pelo apelo do Cardeal Jaime Sin.

“PECADO CARDEAL”
Com uns óculos pequenos no meio do seu grande rosto redondo, ri de si próprio, divertido com o seu título e nome “Cardeal Sin”, “pecado mortal” em inglês. Décimo-quarto filho de uma prole de 16, contou que a mãe tinha muitos cuidados com ele, pois era o mais feio e frágil de todos. Manifestou-se reticente a aceitar o cargo de Arcebispo de Manila, em 1974. Essa função permitiu-lhe, no entanto, denunciar publicamente a política seguida por Marcos contra os pobres das favelas de Manila. Tornando-se porta-voz de Corazon Aquino, viúva de Benigno Aquino, pediu aos Filipinos que cercassem os quartéis da polícia e do exército em Manila, para proteger os dirigentes que tinham cortado relações com o ditador Ferdinand Marcos. Mais de um milhão de manifestantes responderam ao apelo, ocupando as ruas e rezando o Terço. Por vezes, havia religiosas à frente das manifestações, pois os polícias jamais teriam ousado atacá-las. Este cardeal, graças à protecção precária do seu estatuto de homem da Igreja, tornou-se o opositor mais sério da política do ditador. A revolução que se seguiu, que ficou na História sob o nome “People Power Revolution” [Revolução do Poder do Povo], obrigou Marcos e a sua família a procurar refúgio nos EUA, onde foram recebidos pelo presidente Ronald Reagan.

Oração
Para que a Igreja Católica nas Filipinas continue a ter líderes fortes e corajosos que defendam e orientem o seu povo, nós Te pedimos Senhor.



UM CASO DE FAMÍLIA


Trinta e cinco anos após estes acontecimentos, os Filipinos arriscam-se a reencontrar os problemas de governação que perseguiram com tanta coragem. Sem dúvida que “Bongbong” Marcos não é o seu pai, mas este homem que possui contas bancárias na Suíça, que recusou o debate com os restantes nove candidatos e que fez do enriquecimento o seu tema principal de campanha, não tem o perfil de um reformador benevolente e sensato.

“Os jovens não conheceram Marcos, não percebem o que é que passámos”, ouve-se nas ruas de Manila, entre os eleitores mais experientes. Aqueles que não têm a mesma experiência podem ser enganados pelo glamour da campanha de Bonbong Marcos, que exibe descaradamente as suas aquisições materiais e garante que pode partilhá-las com os Filipinos.

Dos 67 milhões de eleitores, uma grande maioria está ligada à Igreja Católica que esconde mal a sua oposição a este candidato. Mas isso não os impede de votar nele. Instala-se uma estranha dicotomia, que também se pode observar noutros países. O eleitor padrão irá à Missa de Domingo e depois votará num candidato muito afastado dos ideais cristãos, convencido que para salvar a sua alma pode confiar no padre, mas que para garantir a sua riqueza é melhor recorrer a um vigarista talentoso.

Os filipinos católicos informados, que conheceram anos difíceis sob a presidência de Rodrigo Duterte, sentem que vão de mal a pior. Para que conste, a eleição de Rodrigo Duterte em 2016 provocou a perplexidade muito para além das margens do arquipélago filipino. Populista, a personagem era então frequentemente comparada a Donald Trump. Na realidade, a comparação não faz jus aos ultrajes do presidente filipino, que assumia longamente nos seus discursos a sua “guerra contra a droga”. Um propósito que ele pretendia seguir com uma ferocidade assumida como uma grande virtude. “Vou engordar os peixes da baía de Manila com os cadáveres dos traficantes e dos toxicodependentes”, garantia, afirmando que se tivesse de derrubar uma centena de milhares de pessoas para garantir a segurança, isso não o faria recuar. Pediu também aos soldados que “matassem todos os comunistas com quem se cruzassem”.

Oração
Para que o povo Filipino seja fiel aos seus valores, e não se deixe influenciar e seduzir por promessas políticas, nós Te pedimos Senhor.



NOITES MARCADAS POR DISPAROS

Ora, Duterte cumpriu em grande parte as suas promessas eleitorais, aterrorizando não só os toxicodependentes e os traficantes, mas também uma grande parte da população pobre das Filipinas. Um expatriado anónimo conta que nas favelas de Cebu “as noites são marcadas por disparos por parte da polícia”. Encontrou uma menina que viu o pai ser assassinado dessa forma, com toda a impunidade. Basta que os polícias encontrem – ou coloquem, dizem alguns – um saquinho de droga no local do crime, para não serem incomodados.

A maior parte das crianças das favelas de Cebu conhecem alguém a apodrecer na prisão pelos delitos de consumo de droga, reais ou alegados. As datas dos julgamentos são desconhecidas e a experiência demonstra que podem ser adiados durante anos. A Igreja Católica opôs-se a esta política continuamente nas pregações e comunicados da Conferência Episcopal das Filipinas, provocando a raiva do presidente. D. David Ambo, Bispo de Caloocan e presidente da Conferência Episcopal Filipina foi assim acusado publicamente por Duterte de “consumir droga”. Uma acusação perigosa, que lhe poderia valer uma das execuções extrajudiciais que abundam nas colunas dos jornais filipinos. Diversos polícias católicos, receando que a acusação do presidente fosse levada a sério pelos seus partidários, propuseram-lhe protecção, que o bispo recusou.

Ora, embora não esteja autorizado pela Constituição a apresentar-se para um novo mandato, o presidente Duterte provavelmente continuará a influir na vida política do seu país. Em primeiro lugar porque a sua aliança com o clã Marcos se torna cada vez mais evidente. Desde o início do seu mandato, fez erigir um monumento em honra de Ferdinand Marcos. Por outro lado, a sua filha, Sara Duterte, candidatou-se ao cargo de vice-presidente da família Marcos. Estes acontecimentos parecem demonstrar aos Filipinos que há uma família que detém o poder e que as esperanças suscitadas pela revolução de 1986 se esfumaram.

Oração
Para que surjam políticos e dirigentes verdadeiramente interessados em desenvolver o seu povo e nação, nós Te pedimos Senhor.



500 ANOS DE EVANGELIZAÇÃO
Padre da ordem do Prado enviado para as Filipinas, o Pe. Julien Kaboré testemunha a vitalidade da Igreja local. Ele assistiu ao encerramento do ano jubilar, em Abril de 2021, festejando os 500 anos de evangelização do arquipélago. A Igreja Filipina é a principal Igreja da Ásia, e difunde-se devido à grande mobilidde dos Filipinos. As vocações são relativamente numerosas, mas muito insuficientes. Em 2020 havia 4055 candidatos ao sacerdócio. Comparativamente, a Europa inteira tinha 8854. Quanto aos baptizados, houve 1,6 milhões nas Filipinas e 1,5 milhões em toda a Europa.



UMA MORTE A MAIS
Jornalista, depois secretário do partido liberal opositor de Marcos, Benigno Aquino Junior foi preso no início da lei marcial imposta por Marcos, em 1972, e redescobriu a fé católica na prisão. Para protestar contra o processo iníquo que lhe foi instaurado, entrou em greve de fome e jejuou durante 40 dias, passando de 54 para 36 kg. Retomou a alimentação a pedido da família, que lhe recordou que Cristo não passou mais de 40 dias no deserto. Enviado aos EUA para uma cirurgia, decidiu regressar ao seu país em 1983, apesar dos riscos, estimando que “os Filipinos merecem que se morra por eles.” Foi assassinado logo que desembarcou. O funeral, ao qual assistiram mais de 2 milhões de pessoas, marcou o declínio de Ferdinand Marcos, que foi destituído três anos depois, em 1986.


Comentários

Deixar um comentário
Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.
Os cookies ajudam-nos a oferecer os nossos serviços. Ao utilizar a nossa página, concorda com a nossa política de cookies.
Saiba Mais