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Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Maio de 2022

1 maio 2022
Sementes de Esperança: Maio de 2022
MOÇAMBIQUE:
PERANTE O PERIGO ISLÂMICO



Superfície
799.380 km2

População
32,3 milhões

Religião
Cristãos: 54%
Religiões Tradicionais: 28%
Muçulmanos: 17,5%
Outras: 0,5%

Língua
Português


O impulso islamista está a multiplicar os actos de barbárie. A Igreja continua corajosamente a sua missão de acompanhamento.


Estado entre os mais pobres do planeta, gangrenado pela corrupção e 46 anos de poder ininterrupto do partido FRELIMO, mal refeito das consequências de uma guerra civil atroz que fez mais de um milhão de mortos e cinco milhões de deslocados, atingido pela Covid 19, Moçambique enfrenta desde 2017 um novo desafio: uma insurreição islâmica na província de Cabo Delgado, a nordeste do país. O Al-Shebab, cujo objectivo é o estabelecimento de um mini estado islâmico à imagem do Daesh onde está filiado, começou por instalar focos de insurgentes no mato e a partir de 2020 conquistou aldeias, perante a indiferença do resto do mundo. A tomada de Palma a 24 de Março de 2021, a poucos quilómetros de um importante complexo petrolífero, acordou não só a África mas o resto do mundo. Uma força africana multinacional, comandada pelo Ruanda e apoiada pela União Europeia recuperou algumas aldeias (das quais Mocímboa da Praia) durante o Verão de 2021, mas a situação no resto da província continua precária. Será que o regime de Felipe Nyusi terá capacidade para repor a ordem, evitar a fome e erradicar a corrupção, uma vez que a ameaça islâmica se mantém?

Oração
Para que Moçambique volte a viver dias de paz e se consiga libertar dos grupos terroristas que espalham a violência, nós Te pedimos Senhor.




TESTEMUNHOS CHOCANTES

A Igreja paga um pesado tributo à guerra insurgente do Al-Shebab. Em Setembro de 2020, duas religiosas brasileiras, a Irmã Eliane da Costa e a Irmã Inês Ramos, foram raptadas em Mocímboa da Praia, durante um ataque e libertadas 24 dias depois. O testemunho da Irmã Eliane sobre o que viram nos campos é terrível: “Não se esqueçam das pessoas raptadas, particularmente as crianças e os adolescentes, formados pelos seus raptores para se tornarem eles mesmo terroristas.” O Pe. Kwiriwi Fonseca, um dos responsáveis pela comunicação da Diocese de Pemba, corrobora estas revelações: “Os terroristas utilizam os rapazes para os formar e incluir nas suas fileiras, enquanto as meninas são violadas e se tornam suas esposas. Algumas são depois rejeitadas, quando já as consideram sem interesse.”

Durante a tomada de aldeias, houve cristãos decapitados, as suas casas queimadas e os outros tiveram de fugir para o mato para se salvar. Em Mucojo apareceram cinco homens e os habitantes perceberam que se tratava de terroristas. Encontraram Mina, o seu marido, o seu irmão e os seus quatro filhos e disseram-lhes: “Vamos levar estas duas crianças”; e levaram três: um de 14 anos, um de 12 e um de 10. Ataram o marido e o irmão de Mina, e ordenaram-lhe que partisse. Ela recusou-se e foi então que viu o seu marido e o seu irmão serem degolados, diante da filha pequena. Hoje, esta continua a viver no medo e insiste em voltar à aldeia para ver o pai. No distrito de Muidimbe, Chico, um agricultor da missão de Nangololo, viu um dos seus filhos decapitado e a sua casa destruída; teve de passar meses escondido no mato.



Refugiado em Pemba com a mulher e na esperança de reunir os filhos, vive debaixo de uma lona no pátio que uma alma caridosa lhe empresta. Um programa de micro-crédito da Igreja Católica permitiu-lhe montar um pequeno negócio que garante a sobrevivência dos seus.

As igrejas de Palma e de Mocímboa da Praia foram pilhadas e destruídas durante os combates. Em Palma, um catequista da Paróquia de São Bento, Paulo Agostinho Matica, conseguiu salvar os registos, memória da comunidade e fugiu com eles, enquanto os jihadistas acendiam uma grande fogueira no chão da Igreja para queimar tudo.

Em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, o novo administrador apostólico, D. António Juliasse, chegou na véspera da ofensiva geral do Al-Shebab. “Todos estávamos abalados. Houve numerosos apelos por parte dos superiores gerais (das congregações religiosas) para saber se devíamos levar os membros da diocese para fora dali. Penso que tínhamos passado por tudo juntos e que seria bom encontrar um caminho, e Deus acompanhou-nos nesse momento para apelar a um discernimento mais profundo. Foi o que nos permitiu também encontrar uma perspectiva mais profunda na nossa missão e no nosso compromisso, bem como a nossa resposta à dimensão do martírio, porque ninguém procura o martírio mas ele pode surgir a qualquer momento. Estamos talvez de facto expostos a riscos mas, ao mesmo tempo, estamos aqui em missão e estamos aqui por Jesus. Temos de continuar.”



Além dos milhares de mortos, a insurreição islâmica levou mais de 850 mil pessoas a fugir das suas cidades, aldeias e povoações. Muitos refugiaram-se na capital da província, Pemba, cujos 400 mil habitantes se encontram já na miséria. O Pe. Kwiriwi Fonseca explica como a Igreja Católica procura ajudar as pessoas deslocadas que perderam tudo e se encontram totalmente dependentes da solidariedade dos outros: “No dia-a-dia, procuramos não só ser padres mas também activistas, psicólogos, directores espirituais, socorristas, distribuidores de comida, voluntários da Caritas, da diocese… É para estas actividades que devemos estar prontos. Temos de nos adaptar a cada nova realidade. Aqui, hoje, a flexibilidade é a palavra de ordem. Flexibilidade para ajudar todos os que batem à porta da Igreja à procura de ajuda. A nossa vida mudou. Ser padre é um pouco como ser um serviço de urgência. É igual a estar de piquete 24 sobre 24 horas. Dedicamos todas as nossas forças e o nosso coração a este combate. No fim do dia, pelo menos podemos dizer que ainda estamos vivos.” Quando lhe perguntamos quais são as maiores necessidades, declara: “Aqui falta-nos tudo, mas primeiro e antes de mais nada, rezem por nós.”

Para o seu Bispo, D. António Juliasse, a situação de segurança ainda se mantém precária mas “formámos equipas que vão aos lugares ou onde há pessoas deslocadas. Para todo este mundo de deslocados, a alimentação e a saúde continuam a ser uma urgência. Temos falta de medicamentos por todo o lado. Outra prioridade que vemos, como Igreja, é a assistência espiritual. Trata-se de uma prioridade para a Igreja com uma atenção pastoral para a integração dos deslocados na vida cristã e religiosa onde quer que se encontrem.”

No contexto da província afectada pela insurreição, a rádio é a única possibilidade de continuar a catequese e a formação espiritual de uma população isolada pela guerra, a pandemia, a falta de recursos, as distâncias, de difundir as Missas e de ouvir aquela que é talvez a única, e mais poderosa, fonte de esperança para estes tempos de guerra e pandemia: o Evangelho – mas há muitas comunidades que nem sequer têm um aparelho de rádio ou electricidade. A Rádio São Francisco foi totalmente destruída pelos terroristas, mas a Rádio Sem Fronteiras aumentou a sua audiência. A Fundação AIS financiou a compra de receptores recarregáveis por energia solar.

Ao mesmo tempo, os bispos de Moçambique, enquanto denunciam o terror islâmico, insistem nas suas causas: o desvio dos recursos da região que se realiza alimentando “a revolta e o rancor nos corações dos jovens, tornando-se causa de descontentamento, divisão e dor”. A ausência de esperança incita-os a “aderir a formas de insurreição como a criminalidade, o terrorismo e o extremismo político e religioso”.

Uma outra chaga afecta Moçambique: o tráfico de órgãos por máfias criminosas. As suas vítimas são muitas vezes emigrantes da África do Sul e os pobres de Moçambique. São raptados, mortos antes ou frequentemente durante a mutilação. Os seus órgãos são vendidos em Moçambique e nos países vizinhos para rituais de magia negra que supostamente proporcionam riqueza e felicidade. A Igreja Católica está muito empenhada no combate a este flagelo: campanhas de sensibilização e difusão de material informativo, conferências nas escolas, formação de grupos de alerta, participação junto das autoridades, socorro às vítimas que conseguiram sobreviver.



Oração
Para que a Igreja em Moçambique continue a semear a fé e a esperança nos corações e a trabalhar em prol da vida e da dignidade do povo, nós Te pedimos Senhor.


A MORTE DO CARDEAL DOS SANTOS
O Cardeal Alexandre José Maria dos Santos, antigo Arcebispo de Maputo, faleceu a 29 de Setembro de 2021. Nascido em Zalava em 1924, entrou para os Franciscanos e era o primeiro em muitas coisas; o primeiro padre africano da colónia portuguesa em 1953, depois o seu primeiro bispo africano mesmo antes da independência, o primeiro cardeal africano de Moçambique em 1988. Durante a guerra civil defendeu os pobres e as vítimas civis. Esta grande figura recorda o papel dos Franciscanos e dos Capuchinhos na evangelização do país.



UM BISPO CORAJOSO
O brasileiro Luís Fernando Lisboa, Bispo de Pemba, denunciou publicamente a incúria do Governo, a corrupção ligada aos grandes projectos petrolíferos e os sofrimentos da população da província devido à insurreição: “A exploração dos recursos naturais é a causa da crise” declarou no site do Vaticano. Atacado pelo Governo, recebeu apoio dos seus confrades e do Papa Francisco. Voltou ao Brasil no início de 2021 como Arcebispo de Cachoeiro de Itapemirim.


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