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Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Junho de 2022

1 junho 2022
Sementes de Esperança: Junho de 2022
SÍRIA:
O INTERMINÁVEL INVERNO ÁRABE



Superfície
185.180 km2

População
18,9 milhões

Religião
Muçulmanos: 94,3%
Cristãos: 3,6%
Agnósticos: 2%
Outras: 0,1%

Língua
Árabe


Onze anos depois do início da “revolução síria” que deveria trazer a democracia ao país, no contexto do brotar internacional das “Primaveras árabes”, o país está em ruínas. E não se reergue.


Alguns dos bairros não têm pedra sobre pedra. Os prédios pulverizados sucedem-se tristemente, testemunhas da extrema violência dos combates que sacudiram a cidade de Homs. A terceira cidade mais populosa da Síria era conhecida por abrigar uma importante comunidade cristã, que vivia em parte do comércio com o Líbano, ali ao lado. A prosperidade da cidade pertence ao passado, os habitantes de Homs sobrevivem em condições económicas miseráveis. A cidade foi, durante muito tempo, um epicentro da crise da Síria, entre 2011 e 2014, quando era denominada a “capital dos rebeldes”. Desde o princípio da guerra na Síria, em 2011, bairros inteiros da cidade passaram a estar sob o controlo dos insurgentes. Tinham a certeza da vitória: no Magreb, no Médio Oriente e no Egipto os antigos regimes militares muçulmanos viam as suas bases vacilar. Foi o tempo das “Primaveras árabes” que deviam teoricamente levar os países à democracia. A Síria, dominada pelo partido Baas, que vivia sob a direcção da dinastia Assad desde há 40 anos, parecia ser o alvo principal para a mudança social.

Oração
Para que a verdadeira “Primavera” renove esta nação arruinada pela guerra, nós Te pedimos Senhor.



UMA GUERRA PARA NADA

Sabemos o que se seguiu. Quando não foram interrompidas, as Primaveras árabes transformaram-se em Invernos islâmicos. Na Síria, arruinaram o país sem provocar qualquer evolução na situação política e em Homs os rebeldes fixaram-se na cidade, cercada pelo exército árabe sírio até 2014, antes de admitir a derrota. Sete anos depois, dir-se-ia que os combates tinham acabado na véspera. Nos bairros bombardeados, contentaram-se em desviar os escombros que cobriam as estradas para deixar passar os veículos. Mas os imóveis continuaram em escombros, como memória sinistra de uma guerra que não acaba.

No meio dos bairros despovoados, os Sírios subsistem, apesar de tudo, com uma hora de electricidade por dia e sem qualquer aquecimento. É o caso da Irmã Samia, fundadora do Sénevé, Centro de acolhimento para pessoas com deficiência mental, em Homs. Foi uma instituição que cresceu durante a guerra. Cento e cinquenta jovens aí se dirigem diariamente; eram 30 em 2001. Apesar da chuva de bombas, os orientadores do centro conseguiram acudir aos mais fracos de entre os fracos. A Irmã Samia explica: “Ensinamos-lhes um ofício, na tentativa de os tornar o mais autónomos possível. Sem o apoio das organizações como a Fundação AIS ou a Obra do Oriente, estas crianças seriam abandonadas a si próprias. Porque as famílias não poderiam pagar a totalidade dos custos. As perspectivas económicas são sombrias. Muitas vezes oiço dizer que a situação hoje é pior que durante a guerra.”

Esta última frase chocante ouve-se muitas vezes nas ruas da Síria. A razão é-nos explicada pelo proprietário de um café, enquanto contempla a sua esplanada desesperadamente vazia: “Durante o cerco de Homs, tínhamos medo das bombas, mas podíamos trabalhar e viver. Agora, mesmo os que têm emprego não conseguem prover às necessidades das suas famílias.” As ruas outrora engarrafadas das grandes cidades da Síria estão vazias devido ao preço proibitivo da gasolina. Apesar da paz reencontrada no essencial da Síria fértil e povoada, o país afunda-se cada dia um pouco mais na crise económica.


Oração
Para que Igreja continue a semear a esperança no coração dos Sírios a fim de resistirem ao pessimismo e desalento, nós Te pedimos Senhor.


“PIOR QUE A GUERRA”

O Mons. Mario Zenari, Núncio Apostólico na Síria, afirma, após 13 anos passados em missão na Síria: “Nos primeiros anos, via-se um país em franco desenvolvimento. De repente, havia automóveis por todos os lados nas ruas… mas tudo isso acabou. Neste momento, 12 milhões de sírios já não podem viver nas suas casas.” Este número, colossal considerando os 22 milhões de habitantes antes da guerra, inclui os cinco milhões de refugiados no estrangeiro e de deslocados internos que não conseguem voltar para as suas casas. Muitos dependem de ajuda estrangeira para viver. Uma ajuda vital, insiste D. Zenari. “As ONG são como torneiras no deserto! Cada torneira é um milagre, mas para reconstruír a Síria, precisamos de um rio!” Aos seus olhos, o futuro dos Sírios depende de três capitais que deverão dar um passo em direcção umas das outras. Washington, Bruxelas e Damasco têm, cada uma, um papel importante para provar a sua boa vontade no levantamento das sanções económicas que estão a asfixiar o país. Em Damasco, as ruínas ambém continuam a estragar a paisagem da mais antiga capital do mundo. No meio do antigo bairro cristão, um jovem casal prepara-se para o casamento com decorações excessivas e fatos brilhantes, sob os flashes permanentes de uma nuvem de fotógrafos. A igreja florida e os carros luxuosos não conseguem fazer esquecer que algumas ruas mais à frente a cidade continua mergulhada na escuridão.


Oração
Para que a comunidade internacional seja sensível à situação desastrosa da Síria e aja com consciência e solidariedade, nós Te pedimos Senhor.


ZANGADOS COM DEUS

Numa destas ruas sombrias, uma mãe sobrevive com os seus três filhos O seu pequeno quarto tem um único móvel, a cama, sob o retrato de um jovem, o marido, assassinado pela Frente Al-Nusra no início da guerra. “Eu estava zangada com Deus”, confessa a jovem viúva. Ela não tem meios para poder deixar a Síria e sobrevive com a ajuda da sua comunidade cristã ortodoxa.

Mesmo os jovens que têm trabalho, encontram grandes dificuldades para sobreviver. A maioria partiu, a começar pelos mais novos e os mais qualificados. Em particular os homens, porque são obrigados a fazer o serviço militar até aos 38 anos. “Não recusamos o serviço militar”, diz um deles, “mas não nos podemos alistar sem saber a data de saída.” De facto, devido à continuação do conflito sírio, os
que são chamados e que teoricamente devem passar dois anos de uniforme, são obrigados a continuar a servir no exército árabe-sírio indefinidamente.

A alguns quilómetros a oeste da autoestrada que liga Damasco a Alepo, os combates continuam na região de Idlib e a chegada a Alepo confirma ao visitante a impressão de que a guerra continua. A cidade brilhante com o seu souk (mercado) mundialmente conhecido, vive na obscuridade e não reconstrói as suas ruínas. Avançando por um caminho aberto entre os escombros, os jovens contrastam pelo seu entusiasmo e generosidade com a tristeza da situação. Pertencem à comunidade arménia e percorrem a cidade para distribuir ajuda alimentar aos mais necessitados.


Oração
Para que a generosidade e a esperança dos jovens contagiem quem os rodeia a ajudar quem mais precisa, nós Te pedimos Senhor.


SERVIÇO MILITAR

Como estudantes, não podem ser chamados para o serviço militar, mas confiam que no futuro se arriscam a não poder continuar na Síria, sua terra natal. Como a maior parte dos Cristãos sírios, beneficiaram de uma boa educação e estão destinados a empregos de prestígio, médicos, engenheiros, etc. Mas nada lhes garante que o seu país lhes venha a permitir seguir a carreira que desejam. Os estudantes, voluntários nas associações e catequistas, têm os dias bem preenchidos e demonstram o seu dinamismo. Trabalham à fraca luz de lâmpadas LED e alimentam-se de pão e queijo, os únicos alimentos acessíveis… isso não os assusta. Por outro lado, pensam nas suas futuras famílias e interrogam-se: “Como é que os poderemos alimentar? Onde é que os nossos filhos poderão ir à escola?”

“Do ponto de vista humano, não há esperança” constata a Irmã Françoise. Mas na boca desta carmelita que vive com sete irmãs em Alepo, esta frase não põe fim à história da presença cristã na Síria. A guerra, apesar de todas as desgraças que provocou, foi ocasião para sinais da Providência. Quando, em 2014, o conflito estava ao rubro, as irmãs assistiram a uma estranha “aparição”. “Era de noite quando um velho e grande tractor cheio de pessoas parou à porta do convento com grande ruído”, recorda a Irmã Françoise. O condutor, que desceu do tractor, era um homem muçulmano que vinha pedir água. Fugiu do seu bairro com a mulher e os nove filhos. Perante a sua situação desesperada, as irmãs deram-lhes abrigo durante a noite. Ficaram durante seis anos. A situação de crise levou as irmãs a ajudar os mais desafortunados. Assim se aproximaram dos muçulmanos que demonstram, de acordo com o testemunho da irmã, um grande respeito pela sua vocação de religiosas contemplativas: “Eles compreendem o sentido da oração” explica.Ao ficar na cidade, apesar dos bombardeamentos, as quatro irmãs sírias e as três francesas ganharam o respeito dos seus vizinhos de todas as religiões. “Muitas vezes, um dos nossos vizinhos pergunta-nos porque não partimos. Depois, praticamente na mesma frase, implora-nos: ‘Não partam!’ Somos testemunhas da solidariedade dos Cristãos pela Síria. Graças aos benfeitores que nos apoiam, e por quem rezamos todos os dias, testemunhamos perante os Sírios que não estão abandonados.”


Oração
Para que a esperança seja realmente a última a morrer e a caridade dê origem a milagres, nós Te pedimos Senhor.





DEMASIADOS EXÉRCITOS PARA UM PAÍS TÃO PEQUENO
“O nosso país é demasiado pequeno para tantos exércitos”, lamenta um padre residente em Hassaké, uma cidade tomada pelas forças de segurança curdas. “Temos o exército árabe-sírio, o exército turco, o exército russo, as forças especiais ocidentais e as forças curdas. Como poderemos ter paz nestas condições?” Esta hipermilitarização do nordeste da Síria explica-se, em particular, pela presença de campos de gás e petróleo, obrigando os habitantes a fugir do seu país, exasperados por sucessivos postos de controlo e estrangulados pela desastrosa situação económica.



MAALOULA, O BASTIÃO DOS CRISTÃOS
Nas montanhas com vista sobre Damasco, a pequena cidade de Maaloula representa um lugar de peregrinação para todos os Cristãos da Síria. Os habitantes orgulham-se de falar um aramaico parecido com o da antiguidade, semelhante ao que o próprio Jesus falava. Apesar da destruição não ter poupado a cidade, as igrejas foram reparadas e 60% dos habitantes cristãos regressaram. Uma proporção muito boa, em comparação com o resto da Síria.


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