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Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Dezembro de 2022

1 dezembro 2022
Sementes de Esperança: Dezembro de 2022
EUROPA ORIENTAL :
AS GUERRAS NA UCRÂNIA


Superfície
603.500 km2

População
43,5 milhões

Religião
Cristãos: 86,4%
Agnósticos: 9,9%
Muçulmanos: 1,5%
Ateus: 2,1%
Outras: 0,1%

Língua
Ucraniano


Enquanto os exércitos russo e ucraniano se digladiam no terreno, o conflito toma múltiplas dimensões que não excluem a esfera religiosa. A reconciliação entre irmãos inimigos russos e ucranianos nunca pareceu tão longínqua.



“Não é preciso exagerar as divisões entre as Igrejas Ortodoxa Russa e Ucraniana” afirmou o Arcebispo Maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana, D. Sviatoslav Chevtchouk. Há muitas “tensões”, reconhece, mas não existe ódio fratricida. Houve observações desconcertantes, proferidas em Janeiro de 2022, apenas um mês antes dos tanques do exército russo entrarem pela Ucrânia. Apesar disso, D. Sviatoslav Chevtchouk não apresentava qualquer ingenuidade. Esclarecia que “existem violentas tensões entre o Ocidente e a Rússia. Tememos muito uma escalada.”

Nessa altura, poucas pessoas imaginavam que o conflito latente que opunha a NATO e a Rússia pudesse tomar a forma brutal de exércitos que se confrontam fisicamente de forma violenta numa guerra convencional. Já existiam sanções económicas, pressões diplomáticas, informações de ambos os lados, movimentos de tropas, mas a imagem de tanques russos a invadir a estepe, deveria fazer parte do passado.

No momento em que escrevemos este artigo, o exército russo está concentrado no leste do país, ameaçando cercar uma parte do exército ucraniano. Retirou-se dos arredores de Kiev e do norte do país, dando ao mundo a imagem de um exército vencido. Muitos jornalistas reportavam-no como prova de uma derrota, comentando vídeos de veículos russos destruídos pelas tropas ucranianas. Outros, divertiam-se com cenas caricatas de carros de assalto russos abandonados, rebocados como troféus por tractores agrícolas ucranianos. Mas o cidadão do Ocidente que recebe estas imagens deve ter em mente que elas são pré-seleccionadas pelos media ucranianos.

As informações de outras fontes são de acesso mais difícil. Tendo em vista os elementos objectivos que nos chegam, em particular os mapas de progressão dos exércitos presentes, houve uma derrota russa em Kiev, mas isso não significa uma derrota completa da invasão. O exército russo obteve ganhos territoriais consideráveis a leste do país e não desarma. Pelo contrário, o exército ucraniano tem-se mostrado incapaz de uma contra ofensiva de envergadura.


Oração
Para que a guerra na Ucrânia termine em breve e a paz possa voltar a reinar neste país e nos corações dilacerados do seu povo, nós Te pedimos Senhor.


A OPÇÃO NUCLEAR JÁ NÃO É TABU

Enquanto a guerra convencional evolui, vão surgindo extensões noutros domínios, levando o mundo inteiro a uma nova era de incerteza A opção nuclear já não é um tabu absoluto, na medida em que Vladimir Putin a menciona para prevenir os países que se sentissem tentados a formar aliança com a Ucrânia. Como numa sequência digna de um mau filme de acção, vimos o primeiro canal de informação russo, Rossiya 24, transmitir uma simulação demonstrando que as capitais europeias Londres, Paris e Berlim poderiam ser pulverizadas em 200 segundos por mísseis hipersónicos.

Mesmo sem o recurso ao fatídico botão vermelho, o conflito já perturba os mapas geopolíticos. Particularmente na frente económica, onde as sanções de uns respondem às manobras de outros. No dia 1 de Março de 2022, o ministro francês da Economia, Bruno Lemaire, prometia uma “guerra total” no plano económico e assegurava: “Vamos provocar o colapso da economia russa.” A maneira como este propósito surgiu em directo na rádio provocou um escândalo que obrigou o ministro a pedir desculpas pelo tom com que falou. Mas as questões mais criticáveis são provavelmente as de fundo. De facto, dois meses após a aplicação destas sanções, é forçoso constatar que não só não prejudicaram a economia russa, como, pelo contrário, esta se aguentou muito bem.

O rublo ganhou força, ao contrário do euro. A Rússia, que imaginávamos ser uma potência militar superior, dotada de um peso inferior a nível diplomático e económico, demonstrou ser um fracasso militar e uma força económica. Quanto à diplomacia, a imagem, amplamente difundida nos media ocidentais, de uma Rússia isolada, parece relativamente falsa relativamente ao mapa dos países que continuam a manter relações cordiais com ela. A China, é claro, mas também a Índia e o Brasil, para mencionar só os mais importantes. Há ainda diversos países muçulmanos que vêem em Vladimir Putin um aliado concreto contra o Ocidente.

Este facto coloca o chefe do Kremlin em posição de jogar a sua guerra mediática sob a bandeira da “muralha da civilização”, que se opõe à corrupção moral do Ocidente. E o Patriarca de Moscovo, chefe da maior Igreja Ortodoxa do mundo, em número de fiéis, segue os seus passos. No Domingo dia 6 de Março, o Patriarca Kirill de Moscovo fez um sermão descrevendo um Ocidente moralmente decrépito, que abandonou as suas raízes cristãs e contra o qual a Rússiamantém uma guerra existencial. Por este prisma, a guerra à Ucrânia é uma acção defensiva para proteger a Rússia de um surto atlanticista.

Para explicar este ponto de vista, excessivamente pessimista das sociedades ocidentais, é preciso recuar aos anos 90, a seguir à queda da URSS. Os Russos viveram-nos como uma anulação total. O seu país, antiga superpotência, foi entregue às máfias, aos oligarcas e tornou-se uma nação arruinada. Por trás desta queda viam a mão da NATO, com os EUA à cabeça. Existe certamente no nacionalismo russo actual um aspecto de “vingança”, que se apoia em elementos objectivos. Assim, a questão da adesão de países de leste à NATO surge frequentemente na argumentação russa, porque realça a soberania dos Estados que a solicitam, sendo normal que seja proposta e aceite por países soberanos. Mas como é possível não compreender que esta organização, que foi na sua origem pensada como protecção contra a URSS, seja entendida como hostil pela Rússia dos nossos dias? Da mesma forma, a atitude europeia, que se alinha sistematicamente pelas posições americanas, encoraja os Russos a olhar o Ocidente como um bloco homogéneo hostil.

No terreno, as ideologias e os complicados cálculos dos governantes, levam à tragédia que testemunham as mensagens diárias recebidas pela Fundação AIS. Assim, o Bispo de Kharkiv-Zaporijia, D. Pavlo Honcharuk, comenta “Sobrevivemos mais uma noite.” Situada a alguns quilómetros da linha da frente, a cidade estratégica de Kharkiv sofre permanentemente os bombardeamentos da artilharia russa. Com um laivo de ironia, descreve: “E parece suspeito quando há calma… ficamos a pensar no que estarão a preparar. É como quando os pais na sala de repente não ouvem os seus filhos no quarto…”

Como a grande maioria do clero ucraniano católico, teima em permanecer no seu lugar ao serviço dos Ucranianos. Entre este clero dedicado, o Pe. Lucas, missionário de origem brasileira enviado a Kiev, assegura que os horrores da guerra são também ocasião de testemunhos muito tocantes de solidariedade. Nunca confessou tantas pessoas e, mais surpreendente, nunca celebrou tantos casamentos! “É impressionante, porque as pessoas vêem pedir-nos para celebrar o casamento, mesmo sabendo que não podemos preparar nada de requintado. Não têm ilusões, querem viver estes dias na graça de Deus, em família.”


Oração
Para que a Igreja continue corajosamente presente entre os Ucranianos que sofrem levando-lhes amor, consolo e o próprio Jesus, nós Te pedimos Senhor.

OS REFUGIADOS DESCOBREM A IGREJA
Magda Kaczmarek, responsável dos projectos da Fundação AIS na Ucrânia, testemunha: “Dos refugiados que chegam da Ucrânia oriental muitos não são baptizados, nem cristãos praticantes. Agora, nos centros de acolhimento para refugiados criados pela Igreja, têm um primeiro contacto com uma Igreja viva. São pessoas muito reconhecidas à Igreja que as acolhe e voltam a encontrar a presença de Deus nestes lugares. Temos encontrado pessoas que nunca tinham entrado numa igreja e que hoje rezam juntas, principalmente o terço."



UMA RELAÇÃO HISTÓRICA FUNDAÇÃO AIS - UCRÂNIA
Mesmo antes da invasão russa de 24 de Fevereiro, a Ucrânia fazia parte dos países mais activamente apoiados pela Fundação AIS, devido às necessidades das igrejas católicas do país que têm de financiar a sua reconstrução depois de décadas de regime soviético. A Igreja Greco-Católica, principalmente, foi particularmente perseguida. Os seus sacerdotes foram deportados ou recrutados para a Igreja Ortodoxa e os seus lugares de culto foram confiscados, transformados em museus ou deixados ao abandono. Josyf Slipyj, Arcebispo desta Igreja, passou 18 anos da sua vida em campos de trabalhos forçados antes de encontrar o Pe. Werenfried van Straaten, em 1963.


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