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Sementes de Esperança

Sementes de Esperança: Janeiro 2020

1 janeiro 2020
Sementes de Esperança: Janeiro 2020
IRAQUE:
“1400 ANOS DE RESISTÊNCIA PODERÃO ACABAR AGORA”

 A quase metade dos Cristãos iraquianos que tinham fugido da região de Mossul e da Planície de Nínive regressou a casa. Reconstroem, trabalham e refazem, o melhor que podem, a vida que tinham há cinco anos, mas o seu futuro está ameaçado pelos mais recentes desenvolvimentos da situação iraquiana.

Superfície: 435.050 km2
População: 37.548.000 habitantes
Religiões: Muçulmanos: 98,3% | Outros: 1,7% 
Língua: Árabe

“Os Cristãos pedem apenas para regressar ao seu país natal” explica Xavier Bisits, correspondente da ACN no Iraque. “Mas precisam de três coisas para o fazer: acesso à educação para as crianças, trabalho e segurança.” As escolas e as oficinas reabrem, mas relativamente ao terceiro ponto as notícias são inquietantes. Os Cristãos têm a consciência profunda de que vivem no meio de vizinhos de maioria sunita que não opuseram grande resistência à expansão do ISIS. É certo que o pseudo-califado está reduzido a alguns combatentes refugiados no deserto, mas permanece a hostilidade para com os Cristãos. Para subsistir precisam de uma autoridade firme que os defenda. E o Estado está a revelar as suas limitações.

Cristãos dão graças pela reconstrução das suas casas.
Cristãos dão graças pela reconstrução das suas casas.

Um Estado iraquiano vacilante
No mês de Agosto de 2019, as milícias Shabaks encarregadas de garantir a segurança das regiões fronteiriças entre o Iraque e o Curdistão iraquiano recusaram-se a deixar a zona como lhes tinha ordenado o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi. Estas milícias que operam sob o comando das PMF [Forças de Mobilização Popular] tinham sido criadas para combater o ISIS. Agora que já não há motivos para existirem, o Governo iraquiano não sabe como se livrar destes aliados incómodos. Não contente com recusar-se a obedecer à ordem do Governo, a 3ª Brigada da Milícia cortou as estradas entre Mossul e Erbil para manifestar o seu desacordo.

As milícias “Shabaks”, nome de uma etnia de confissão muçulmana xiita, são controladas pelo Irão que participou activamente na derrota do ISIS para estender a sua esfera de influência ao Médio Oriente. Controlam regiões inteiras do país que estão teoricamente sob a autoridade do Governo de Bagdade. A sua desobediência poderia desencadear uma nova vaga de caos, da qual como sempre as minorias religiosas seriam as primeiras vítimas. Por detrás deste conflito entre o Governo iraquiano e as milícias adivinha-se o antagonismo crescente entre os EUA e o Irão, que jogam o seu xadrez no Médio-Oriente. No meio do tabuleiro de xadrez, a minoria cristã paga o preço de um jogo em que não tem nenhum papel activo. Plenamente conscientes desta situação pouco invejável, os Cristãos recusam-se a ser expulsos das suas terras ancestrais.

Escolheram mesmo voltar em massa. A Comissão de Reconstrução da Planície de Nínive, organizada pela Igreja Caldeia, calculou que 9.230 famílias caldeias já regressaram à Planície de Nínive, ou seja, um pouco menos de metade das que aí residiam antes de 2014. Uma grande parte delas voltou dois meses após a libertação das suas cidades pelos jiadistas em Novembro de 2017. Em Bartella, Bakhdida ou ainda em Tel Keppe, apesar dos vestígios de combate e das numerosas destruições, estes cristãos desmentiram os prognósticos que diziam que estariam demasiado traumatizados para considerar o seu regresso. Com efeito, as organizações humanitárias estiveram à beira da sobrecarga devido à vaga de exilados que regressavam a casa. Iban de la Sota, que na época coordenava localmente a acção da ACN, partilha: “Alguns caldeus que me tinham dito que nunca mais regressariam, reinstalaram-se em Janeiro de 2018. Ou seja, dois meses após os jihadistas terem abandonado as suas casas.” Iban viu jovens caldeus que tinham conseguido asilo no Ocidente, decidir regressar à região de Mossul, apesar de tudo.

Julho 2018: crianças cristãs caldeias reencontram a Planície de Nínive que as viu crescer.
Julho 2018: crianças cristãs caldeias reencontram a Planície de Nínive que as viu crescer.


A Igreja Caldeia desempenha um papel preponderante no regresso dos Cristãos ao Iraque. O clero apela sem cessar aos seus paroquianos para que não abandonem as suas terras ancestrais. E eles actuam em conformidade. Com o apoio de diversas organizações, recuperaram escolas e participaram na reconstrução de uma pequena economia local, duas das condições indispensáveis ao seu regresso.

Oração
Para que a violência cesse no Iraque e permita que os Cristãos possam regressar e viver em paz na sua terra Natal, nós Te pedimos Senhor!


Últimas notícias inquietantes
D. Yohanna Petros Mouche, Arcebispo Católico Siríaco de Mossul, apelou há muito tempo para o regresso dos Cristãos à sua diocese. Lembra-se bem da alegria que experimentou diante da vaga de regresso de 2018 que ultrapassou as suas expectativas: “Os nossos fiéis mostram, através da sua conduta e do apego às suas igrejas, às suas cidades e vilas, um grande sinal de esperança”. No entanto, as últimas notícias que nos faz chegar são inquietantes. Depois de Qaraqosh, cidade de maioria cristã a 30 km de Mossul, escreve-nos: “A situação é ainda muito obscura, não existe governo ou melhor, o Governo é uma quimera e muito fraco; muitas promessas são feitas e não são cumpridas e muitas decisões e decretos são realizados a nosso favor e, sem qualquer motivo aparente, são anulados ou ficam no papel”. Os rumores que nos chegam do reagrupamento de fanáticos muçulmanos armados à volta das aldeias cristãs mergulham as comunidades no medo. Ainda não se concretizaram até agora, mas têm reforçado o sentimento dos cristãos de estarem viver em ilhas cercadas. “Perdoem-me a franqueza, conclui D. Mouche, mas enquanto o Governo e os nossos dirigentes estiverem submissos à influência do Irão, a paz estará muito longe de nós”.

Túmulos destruídos no cemitério cristão de Batnaya, a norte de Mossul, numa zona controlada pelo ISIS.
Túmulos destruídos no cemitério cristão de Batnaya, a norte de Mossul, numa zona controlada pelo ISIS.

Mas para colocar a questão da paz para os Cristãos no Iraque, não podemos usar meias palavras nas suas relações com os Muçulmanos. Os acontecimentos de 2014, quando o ISIS invadiu Mossul e toda a região, levando de um dia para o outro 125.000 cristãos a fugir pelas estradas, poderiam fazer esquecer que o processo de eliminação começou muito antes. Sob o Império Persa, apesar das múltiplas perseguições, os Cristãos tornaram-se uma população muito importante, que semeava o Evangelho muito para além das fronteiras. Mas, depois da conquista muçulmana no séc. VIII, esta população começou a diminuir em cada crise que surgia. O Arcebispo Católico Caldeu de Erbil, D. Bashar Matti Warda, recorda: “Fomos constante e regularmente eliminados durante os últimos 1400 anos por um sistema de crenças que favorece ciclos regulares de violência contra nós, como o genocídio otomano de 1916-1922.” O que não exclui os períodos de tolerância, principalmente nos séculos VIII e XIX, períodos que correspondem à idade de ouro árabe fundada sobre a erudição cristã e judaica. De facto, o florescimento das ciências, da matemática e da medicina foi possível graças aos eruditos cristãos nestorianos que os traduziram dos textos gregos. Mas a tolerância teve o seu fim. A cultura e a riqueza que daí surgiram também acabaram por desaparecer.

O Arcebispo Católico Caldeu de Erbil, D. Bashar Matti Warda.
O Arcebispo Católico Caldeu de Erbil, D. Bashar Matti Warda.

Mesmo durante esses períodos de tolerância, sublinha D. Warda, o fundamento para essa tolerância não era a igualdade entre as pessoas “Fundamentalmente, aos olhos do Islão, os Cristãos não são iguais aos muçulmanos”. Baseados estritamente nos textos do Corão, os Muçulmanos impõem aos Cristãos o estatuto de dhimmi e podem, de acordo com os textos sagrados, confiscar os seus bens, aplicar-lhes a jizya, o imposto islâmico. É, portanto, na natureza profunda do Islão que este bispo encontra a causa das perseguições sem fim que o seu povo sofre e prevê que novas vagas de violência irão surgir contra os Cristãos: “Será pura e simplesmente o resultado natural de um sistema governativo que prega a desigualdade e justifica a perseguição” e antecipa a possibilidade do completo desaparecimento dos Cristãos no Iraque. “Antes de 2003 éramos perto de um milhão e meio de fiéis: 6% da população iraquiana. Hoje, possivelmente, não seremos mais que 250.000 – talvez menos – e aqueles que ficam devem estar prontos para o martírio. Mil e quatrocentos anos de resistência poderão acabar agora”.

Um futuro sombrio que só pode ser evitado pondo em causa o mundo muçulmano, situação com a qual o Arcebispo ousa sonhar: “Talvez estejamos a começar a ver um princípio no Egipto, na Jordânia, na Ásia e mesmo na Arábia Saudita”.

Oração
Para que as autoridades iraquianas permitam que a comunidade cristã seja tratada com igualdade e justiça, fomentando a coexistência pacífica com as outras religiões, nós Te pedimos Senhor!


Resistência do “Estado Islâmico”
Se o tristemente célebre ISIS tem apenas como território pedaços de deserto onde se agarram guerrilheiros exaustos, ainda não perdeu o seu poder de incomodar. Retomando técnicas terroristas, a organização enfrenta as forças de segurança ou os líderes locais, com raptos, assassinatos, emboscadas… Muitas das técnicas utilizadas pela Al Qaeda antes do “Estado Islâmico” tentar formar um novo califado. Segundo o New York Times, o ISIS dispõe de grandes recursos. Cerca de 18 mil jihadistas estariam misturados nas populações civis e o seu espólio de guerra é avaliado em 400 milhões de dólares.



A Islamização do Iraque
Herdeira do laicismo iniciado pelo partido Baas, a lei iraquiana sofre a influência dos xiitas radicais que têm ascendência sobre o Governo do Iraque. Por exemplo, a 23 de Outubro de 2016 foi apresentado um projecto de lei, por um partido xiita, que proíbe o álcool “A Coligação do Estado de Direito”. No mesmo ano, foi votada uma lei que impõe restrições às roupas usadas pelos estudantes nas universidades. Em Agosto de 2019, a proposta de entrada de quatro responsáveis religiosos no Supremo Tribunal Iraquiano, composto por 13 membros, assustou os Cristãos pela possibilidade da sharia vir a dominar as leis iraquianas actuais.

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