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MACAU: Missionárias da Caridade autorizadas a abrir casa na China, mas só se não usarem o hábito

11 novembro 2022
MACAU: Missionárias da Caridade autorizadas a abrir casa na China, mas só se não usarem o hábito

Padre Jesuíta Luís Sequeira, que foi amigo muito próximo de Madre Teresa de Calcutá, recorda o sonho da santa de estabelecer uma missão das irmãs na China e as viagens que realizou a Macau, então um território ainda administrado por Portugal, sempre com esse propósito no pensamento

As autoridades chinesas deram luz verde para que as Missionárias da Caridade possam abrir uma casa no país, mas levantam uma objecção significativa: as religiosas não poderão usar as suas vestes tão características e que se tornaram um símbolo da congregação fundada pela Santa Madre Teresa de Calcutá. Segundo a superiora geral da congregação, numa entrevista a 21 de Setembro à National Catholic Register, o que as autoridades pedem é inaceitável. “Temos o sinal verde para abrir uma casa na China. Mas eles estão insistindo para que abandonemos o nosso hábito. Não podemos fazer isso”, disse a Irmã Mary Joseph.

Esta questão parece ser o principal obstáculo para a concretização de um dos sonhos da vida de Santa Madre Teresa de Calcutá: entrar na China. Actualmente, as mais de cinco mil religiosas que envergam o característico ‘sari’ branco com listas azuis estão presentes já em 139 países.

Madre Teresa não conseguiu levar a sua congregação à China, mas quase. Ficou-se por Macau, então um território chinês, mas onde estava hasteada ainda a bandeira portuguesa no palácio do governador.

As primeiras quatro religiosas da congregação das Missionárias da Caridade chegaram a Macau em 1981. Dois anos depois, Madre Teresa visitava-as. “Vim ver Cristo nos que têm fome, estão despidos, enfermos e sem tecto”, disse, na ocasião, aos jornalistas do território.

Madre Teresa, Prémio Nobel da Paz e que viria a ser canonizada em Setembro de 2016, visitaria Macau ainda mais duas vezes, acompanhando a evolução do trabalho da sua congregação.

O padre jesuíta Luís Sequeira, então superior da comunidade em Macau, e amigo muito próximo da Santa Madre Teresa, recorda, para a Fundação AIS, esse desejo de entrar na China e de, aí, estabelecer uma missão.

“Conheci, pela primeira vez, a Madre Teresa aqui em Macau, em 1985, quando as Missionárias da Caridade tinham já começado a viver neste pequeno território, em 1981... Instalar-se em Macau, a também chamada Cidade do Santo Nome de Deus, revelava já, por si só, o profundo e ardente desejo de Madre Teresa de que as Missionárias da Caridade viessem a estabelecer-se e a residir no interior da China. Nos anos seguintes, muitos contactos foram estabelecidos com as autoridades oficiais, por intermédio de amigos, respeitáveis e responsáveis... Alguma visita se concretizou e até um grupo de missionárias se preparou... Mas, ao fim e ao cabo, nada se concretizou”, diz o padre Sequeira, em mensagem escrita enviada para a Fundação AIS em Lisboa.

Na terceira visita, em 1989, a mais curta de todas – apenas três horas – serviu para pedir ao governo local uma casa para que as irmãs tivessem condições para o acolhimento de crianças pobres.

Na altura, as Missionárias da Caridade ocupavam instalações precárias na chamada Ilha Verde. Eram apenas cinco religiosas: duas filipinas, duas coreanas e uma indiana. Após a audiência com Murteira Nabo [então encarregado de governo, após a saída do Governador Carlos Melancia] madre Teresa de Calcutá disse que continuava a “orar a Deus pela abertura de uma missão” da sua congregação na República Popular da China.

Tal como Macau, também havia uma presença das irmãs da Caridade em Hong Kong, então ainda uma colónia britânica [o território passaria para a soberania de Pequim em 1997]. A presença da congregação em Macau e Hong Kong revelava muito do sonho da Santa Teresa de Calcutá de chegar a terras da China e deixar aí também a sua marca de caridade junto dos mais pobres, dos mais desprotegidos.

Hoje, face às notícias de que as autoridades chinesas admitem a entrada da congregação das Missionárias da Caridade no país, mas apenas se prescindiram do uso do hábito, o padre Luís Sequeira volta a revolver a memória para explicar o que apelida de “aparente fracasso” naquilo que era um dos sonhos da religiosa.

“Tem-se pretendido explicar o aparente fracasso com a exigência da Madre Teresa e, com ela, a Congregação das Missionárias da Caridade, de usar o seu hábito de traços muito particulares e únicos ou de querer ter um sacerdote para celebrar a missa diária... Argumentos que agora, trinta anos depois, voltam à baila... estou convencido, porém, que a razão é mais séria, para além do imediato e do visível”, diz o sacerdote jesuíta. “É uma questão de princípio, no contexto das relações Estado e Igreja. Por outras palavras, as Congregações Religiosas ao manter as suas características de Internacionalidade e universalidade entre os seus membros e, principalmente, ao estabelecerem a autoridade e o governo da Congregação fora do território do país que é a China, estão a defender e a promover um modelo de vida que, ideologicamente, não é aceite na República Popular da China”, acrescenta.

Ao fim de todos estes anos, mais de quarenta, desta tentativa fracassada de fazer entrar as irmãs da Caridade na China, o padre Luís Sequeira diz que é “levado a uma outra compreensão da realidade”. Na mensagem enviada para Lisboa, para a Fundação AIS, o padre refere ainda que “é um facto bastante evidente que o desejo ardente de Madre Teresa de Calcutá de servir os pobres entre os mais pobres na China não se concretizou, enquanto ela esteve connosco”. “Todavia, perante o sucedido, pode-se também e muito correctamente perguntar se, de facto, esse estabelecimento devia acontecer em vida da Santa...! Virando a questão ao contrário. Não caberá, antes, às Irmãs continuadoras do carisma da Santa das noites escuras da alma o concretizar o serviço de amor aos mais pobres na China, aquela que se está a tornar uma superpotência económica? Estou convencido que é às Irmãs Missionárias da Caridade, actuais e vindouras, que pertence a Missão de testemunhar o amor aos pobres entre os mais pobres... na China.”

De facto, por três vezes, essa oportunidade esteve quase a materializar-se, mas nunca aconteceu durante a sua vida. Aliás, só por uma vez Madre Teresa esteve na China, numa visita a título pessoal, em Outubro de 1993. Apesar disso, desse carácter não oficial da deslocação, a religiosa albanesa esteve reunida com o então presidente da Federação Chinesa de Deficientes, Deng Pufang, que era filho de Deng Xiaoping, o grande líder do país após Mao Tsé-tung.

PA | Departamento de Informação da Fundação AIS | info@fundacao-ais.pt




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